Autor da Zona Norte e semifinalista do Prêmio Jabuti defende potencial das favelas como motor de inovação
Escritor e pesquisador, semifinalista do Prêmio Jabuti, discute o papel das comunidades como produtoras de conhecimento e economia
Por Redação Diário Local
O pesquisador e empreendedor social Gê Coelho defende que as favelas brasileiras devem ser reconhecidas como centros de produção de conhecimento, economia e cultura, rompendo com estereótipos de violência e vulnerabilidade. Autor do livro “Favelismo — A revolução que vem das favelas”, ele foi semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico com a obra que mapeia a produção de saber nesses territórios.
Nascido em Vigário Geral e morador do bairro Dourado, em Cordovil, Coelho traz em seu trabalho uma análise sobre como a estrutura do Estado brasileiro muitas vezes ignora as potencialidades das comunidades. Segundo o autor, as favelas movimentam mais de R$ 300 bilhões anuais, montante que supera a economia de 22 estados da federação e de nações como Bolívia, Venezuela e Paraguai.
A trajetória acadêmica do pesquisador também é marcada pela superação de limitações diagnósticas. Após ser diagnosticado com incapacidade cognitiva na infância e ter o aprendizado considerado limitado pela família ao concluir o ensino médio, Coelho decidiu retomar os estudos na vida adulta. Ele se formou em História, fez pós-graduação, mestrado em Filosofia e atualmente cursa doutorado em Bioética.
O que é o conceito de 'favelismo'?
No livro, o conceito proposto por Coelho é dividido em três pilares fundamentais para explicar a realidade das periferias. O primeiro é o chamado 'favelicídio', descrito pelo autor como um modelo de Estado que não reconhece as favelas como produtoras de economia e cultura, tratando o território como um espaço marginalizado.
O segundo pilar consiste no 'favelismo' propriamente dito, centrado nas tecnologias sociais desenvolvidas dentro das comunidades. Segundo o pesquisador, práticas de acolhimento, solidariedade, cooperação e autogestão são soluções que poderiam beneficiar o Brasil como um todo, se fossem integradas à sociedade.
O terceiro bloco da obra aborda a carência de políticas públicas adequadas. Para o autor, o Brasil só poderá se tornar uma potência mundial quando o Estado reconhecer a capacidade das favelas de transformar o país por meio de suas potencialidades.
O desafio do reconhecimento acadêmico e social
Para Coelho, o reconhecimento no Prêmio Jabuti Acadêmico é um marco importante para validar a capacidade de produção de conhecimento (epistemologia) das periferias. Ele argumenta que as favelas possuem linguagens, artes e literaturas próprias, mas que este modelo de saber muitas vezes não é validado pelo ambiente acadêmico tradicional.
O autor aponta que a visão de que as favelas são apenas locais de criminalidade tem raízes em um modelo de pensamento colonial e racista. Ele afirma que, embora existam desafios de segurança, a vasta maioria dos moradores não está envolvida com o crime, mas enfrenta o desafio diário de sobreviver e de buscar o reconhecimento de seu próprio potencial.
Coelho utiliza uma analogia para descrever a visão estatal sobre os territórios: para ele, o Estado enxerga a favela como uma "célula doente" da cidade e tenta combatê-la por meio da mutilação, em vez de tratar as causas da desigualdade.
Além de sua atuação acadêmica, o pesquisador também se dedica à literatura para dar voz a novos temas. No momento, ele prepara o lançamento de seu segundo livro, intitulado “Elaine Cristina”, uma obra de ficção em três volumes que narra a saga de mulheres negras.
