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Cultura

Livro relata rotina de coveiros e destaca desafios psicológicos e preconceito em Belo Horizonte

Obra de Helena Drummond e Letícia Torres detalha o dia a dia de profissionais que lidam com o luto e o estigma social nos cemitérios.

Por Redação Diário Local

O livro-reportagem 'Pé na Cova', escrito pelas jornalistas Helena Drummond e Letícia Torres, detalha a rotina solitária e os desafios enfrentados pelos coveiros em Belo Horizonte. A obra aborda desde os procedimentos técnicos, como exumações, até os impactos psicológicos e o preconceito social sofrido por esses profissionais.

A pesquisa, que teve início como um projeto acadêmico, levou as autoras a acompanharem o dia a dia nos cemitérios da capital mineira. O trabalho revela que, além do esforço físico, há uma carga emocional significativa ao lidar com o luto e as diferentes reações das famílias, que podem variar entre o agradecimento e a revolta direcionada aos trabalhadores.

A primeira visita ao campo ocorreu em março de 2025, no Cemitério Bosque da Esperança, na região norte de Belo Horizonte. Na ocasião, as autoras puderam observar a naturalidade com que os profissionais realizam procedimentos delicados, evidenciando a familiaridade necessária para o exercício da função.

Quais são os desafios da profissão?

A rotina de um coveiro não possui trégua e é afetada por condições climáticas e situações de crise. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, alguns trabalhadores chegaram a realizar cerca de 20 sepultamentos por dia, convivendo com o medo de transmitir a doença para seus familiares.

O aspecto psicológico é um dos pontos centrais da obra. Israel Carlos Pedro, que atua na função há 30 anos, relata que a capacidade de adaptação depende do psicológico de cada um. Segundo ele, é necessário entender o sofrimento alheio sem permitir que a carga emocional desequilibre o profissional, embora as mortes de casos difíceis intensifiquem o peso do trabalho.

Além disso, os trabalhadores enfrentam o descarregamento da frustração do luto. Israel destaca que, enquanto alguns usuários do serviço são gentis, outros utilizam o profissional como alvo de suas revoltas emocionais no momento da despedida.

Preconceito e perfil dos trabalhadores

A obra também aponta um recorte social evidente na categoria. A maioria dos coveiros é formada por homens negros de baixa renda, e a profissão é predominantemente masculina devido à exigência de esforço físico constante.

O preconceito é um dos obstáculos relatados pelas autoras. Há registros de situações de constrangimento fora dos cemitérios, como olhares de julgamento em locais comuns, como supermercados. O livro busca mostrar que existe uma dificuldade da sociedade em enxergar esses indivíduos para além da função que desempenham.

Para as autoras, o objetivo é humanizar esses trabalhadores, mostrando que, por trás dos procedimentos de sepultamento, existem pessoas com desejos, planos de lazer e rotinas familiares que não se limitam ao ambiente de morte.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.