Livro analisa como Virginia Woolf utilizava a instabilidade da linguagem como método literário
Obra de Davi Pinho investiga como a escritora britânica utilizava a ficção para desafiar fronteiras entre gêneros literários
Por Redação Diário Local
O novo livro "Virginia Woolf entre gêneros", escrito pelo professor de Literatura Inglesa da UERJ, Davi Pinho, analisa como a escritora britânica utilizou a instabilidade da linguagem como um método literário e de resistência intelectual. A obra investiga como Woolf transitava entre diferentes formas de escrita para interrogar os limites entre romance, ensaio, biografia e ficção.
A publicação, lançada pela editora Nós, explora a ideia de que a escrita de Woolf funcionava como um espaço para questionar as estruturas rígidas de gênero e de pensamento. Segundo o autor, a escritora tratava a linguagem como uma matéria instável, buscando sacudir sua forma para narrar a vida de maneira mais fluida.
Em seus diários, registrada em 15 de novembro de 1919, Woolf já manifestava sua inquietude com a superfície da linguagem, comparando-a ao mercúrio. Essa busca por novos métodos a levou a classificar suas próprias obras de formas não convencionais, como "peça-poema" ou "romance-ensaio".
Entre os exemplos citados no estudo estão títulos como "As ondas", que flutua entre o romance e a peça, e "Orlando", que utiliza o subtítulo de biografia. A autora chegou a se referir aos seus próprios livros como "meus ditos romances", demonstrando o descompasso com as definições tradicionais da época.
Como Woolf utilizava a linguagem em sua obra?
A escritora utilizava a porosidade dos gêneros literários para criar uma forma de pensamento que resistia à fixação. Para Woolf, a ficção era um experimento e uma aventura que permitia o encontro de diferentes "eus", sem se prender a significados predeterminados.
Essa abordagem buscava desconstruir as divisões binárias comuns à modernidade. O livro aponta que, ao subverter os gêneros literários (genre), Woolf também promovia uma desconstrução das questões de gênero (gender), transformando o pensamento em uma forma de combate e resistência.
O estudo destaca que, em registros de maio de 1940, Woolf descreveu o pensamento como uma luta para preservar a vida e as relações humanas frente à violência. Em um contexto de guerra, ela via a mente como um contraponto ao "corpo-exército", focando no movimento que permite a coexistência.
O que o livro de Davi Pinho propõe?
A obra reúne ensaios que abordam a leitura como um intervalo essencial entre o indivíduo e o mundo. Davi Pinho organiza o conteúdo em saltos entre tempos e espaços para mostrar como a literatura de Woolf atravessa fronteiras e cria novas conexões para o leitor.
O livro é o primeiro ensaio contemporâneo da editora Nós dedicado especificamente ao estudo da produção da autora. A editora já possui um histórico de publicações de Woolf, incluindo os "Diários Completos" e ensaios fundamentais como "Um esboço do passado".
A análise de Pinho busca conectar a produção modernista de Woolf com questões atuais, como as crises de progresso e os limites do Estado. A obra posiciona a escritora como uma figura contemporânea capaz de oferecer novos olhares sobre a sociedade e a resistência intelectual.
O livro "Virginia Woolf entre gêneros" possui 352 páginas e está disponível pelo valor de R$ 110. A publicação amplia a constelação de títulos da editora que tratam da importância de Woolf para a compreensão do pensamento atual.
