Monólogo 'A Hora do Boi' reflete sobre o vínculo entre homem e animal e a lógica da utilidade
Espetáculo protagonizado por Vandré Silveira questiona como a sociedade reduz seres vivos e pessoas a funções produtivas
Por Redação Diário Local
O monólogo "A Hora do Boi", protagonizado por Vandré Silveira, explora a relação entre um homem e um animal para discutir temas como afeto, trabalho e a atribuição de valor às existências ao redor.
Na trama, o personagem Francisco, que trabalha em um matadouro, estabelece um vínculo com Chico, um boi que ele acompanha desde o nascimento. O conflito central da peça acontece quando o sentimento desenvolvido pelo funcionário entra em choque com sua obrigação profissional de conduzir o animal ao abate.
A obra utiliza essa conexão para questionar a lógica contemporânea de que tudo deve possuir uma finalidade produtiva ou utilitária. Através do embate entre a função de trabalho e a sensibilidade, o espetáculo analisa como indivíduos e a natureza são frequentemente reduzidos a funções de consumo ou produção.
O impacto do afeto na rotina produtiva
Dentro da estrutura do trabalho de Francisco, o procedimento de abate é uma engrenagem estabelecida, na qual tanto o homem quanto o animal possuem papéis pré-determinados. No entanto, o reconhecimento de Chico como um ser individual, com história e comportamento próprios, introduz uma complexidade que a lógica puramente utilitária não consegue administrar.
O vínculo entre os dois personagens sugere uma recuperação da humanidade para o próprio Francisco. Ao enxergar o boi além da função de alimento, o trabalhador passa a perceber que também é mais do que o papel de executor que desempenha em sua rotina, questionando o valor de sua existência para além do serviço prestado.
A peça também toca na questão da classificação humana, apresentando momentos em que o animal questiona a suposição de que o ser humano o compreende apenas por ter lhe dado um nome. O texto sugere que dar nome a algo não significa, necessariamente, compreender sua essência.
Construção visual e sonora do espetáculo
A ambientação do monólogo é construída por meio de uma cenografia que sugere o universo de um matadouro sem utilizar excessos, recorrendo a elementos pontuais. A iluminação acompanha o movimento de Vandré Silveira, utilizando cores para reforçar as diferentes atmosferas emocionais da narrativa.
Os efeitos sonoros complementam a experiência, sendo utilizados para ampliar as tensões e auxiliar nas transições da história. Um elemento de destaque na sonoplastia é a voz do chefe, descrita como marcada por sarcasmo e superioridade, representando um sistema que condiciona a existência ao nível de utilidade de cada indivíduo.
