Eliminação do Uruguai marca novo fracasso de Bielsa em Copas do Mundo
Treinador acumula apenas três vitórias em dez jogos de Copas do Mundo; crise com elenco expõe dificuldades de gestão e rigidez tática.
Por Diário Local
A eliminação do Uruguai para a Espanha na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 aprofunda a crise de Marcelo Bielsa e marca seu terceiro fracasso consecutivo em Copas do Mundo. Em dez partidas disputadas em três edições do torneio, Bielsa venceu apenas três vezes.
O histórico é alarmante. Em 2002, caiu na primeira fase com uma Argentina que tinha nomes como Gabriel Batistuta, Juan Sebastián Verón e Javier Zanetti. Em 2010, levou o Chile às oitavas de final, mas foi eliminado pelo Brasil de Dunga. Agora, com o Uruguai, repetiria o padrão de saídas precoces.
A crise interna ganhou dimensões públicas antes da partida contra a Espanha. Segundo o portal uruguaio El Espectador Deportes, Sergio Rochet, Manuel Ugarte, Rodrigo Bentancur e Federico Valverde pediram uma reunião com Bielsa para solicitar mudanças na forma de jogar e nos treinamentos. Defendiam um time mais compacto, em bloco baixo, com exploração de contra-ataques. Bielsa manteve seu plano de perseguições individuais, admitiu que havia convocado jogadores machucados e parte do elenco abandonou a reunião antes do término.
Ronald Araújo resumiu o clima com uma frase dirigida ao treinador: "Deus queira que passemos de fase, mas ninguém aguenta mais."
Desgaste que começou meses antes
O desgaste não era novo. Em novembro de 2023, após vitórias sobre Brasil e Argentina nas Eliminatórias, o Uruguai havia recuperado protagonismo com uma equipe intensa e agressiva. Mas Luis Suárez foi o primeiro a romper o silêncio, afirmando que o ambiente havia se deteriorado e criticando publicamente a relação de Bielsa com o elenco. A revelação expôs um vestiário dividido.
Bielsa respondeu com poucas palavras, evitou explicações e virou assunto ao aparecer olhando para o chão na foto oficial da Copa do Mundo. O ciclo mostrou erros básicos para alguém com 40 anos de bagagem e admiração de treinadores do quilate de Pep Guardiola, Mauricio Pochettino e Jurgen Klopp.
Genialidade tática versus gestão de pessoas
Sua importância para o futebol é inegável. Desde o Newell's Old Boys, Bielsa fez do estudo do jogo sua principal ferramenta — acumulou milhares de vídeos para análise e influenciou gerações de treinadores. Pep Guardiola, Mauricio Pochettino e Diego Simeone sempre o apontaram como referência.
Mas sua genialidade tática e suas coletivas apaixonantes sobre o jogo como instrumento social nunca encontraram títulos para validar a teoria na prática. Em 13 clubes e seleções, acumula apenas três títulos oficiais: dois na década de 1990 e a segunda divisão inglesa pelo Leeds em 2019/20, considerado seu grande trabalho na carreira.
O trabalho no Athletic Bilbao entre 2011 e 2013 foi um dos melhores momentos. Com um elenco sem grandes estrelas, levou o clube às finais da Copa do Rei e da Liga Europa, eliminando Manchester United e Schalke pelo caminho. Pressão alta, perseguições individuais e ocupação agressiva dos espaços marcaram o período.
Comportamento explosivo e conflitos recorrentes
Saídas polêmicas e conflitos pontuam sua carreira. Em 2016, abandonou a Lazio apenas dois dias após ser anunciado. No Lille, em 2017, afastou jogadores experientes e entrou em conflito com dirigentes. No Olympique de Marselha, em 2015, rompeu publicamente com a diretoria após a venda de Lucas Mendes, afirmando que a negociação ocorreu sem seu conhecimento.
Dirigentes, jornalistas e jogadores relataram dificuldades de convivência em diferentes clubes e seleções. Após uma derrota para os Estados Unidos, o próprio Bielsa reconheceu sua rigidez, definindo-se como um "perfeccionista tóxico", incapaz de aproveitar as vitórias porque enxerga primeiro os erros. "Eu sou tóxico. Se relacionar comigo piora quem está comigo", declarou na ocasião.
A inflexibilidade reduz a capacidade de adaptação ao contexto. Ao demonstrar tamanha rigidez, Bielsa fecha espaço para o contraditório e transforma divergências em conflitos. O futebol, porém, é um esporte de seres humanos que requer adaptação constante — algo que o treinador não controla sozinho, mas que os jogadores decidem em campo. O treinador é um mediador, um gestor de pessoas que envolve tática, técnica, físico e emocional.
