Tendência do futebol moderno transforma funções de camisa 9 e camisa 10 na Copa do Mundo
Pressão e intensidade do jogo atual reduzem espaço para centroavantes clássicos e armadores centralizados no torneio.
Por Davy Albuquerque
As funções tradicionais de camisa 9 e camisa 10 passam por uma transformação profunda na Copa do Mundo de 2026, impulsionadas pela exigência de maior intensidade e pressão no futebol moderno. De acordo com o Grupo de Estudos Técnicos (TSG) da Fifa, o torneio confirmou a tendência de que os papéis clássicos de centroavante e armador centralizado estão sendo substituídos por jogadores mais polifuncionais.
As previsões feitas antes do início da competição, em 11 de junho, apontavam que as responsabilidades de marcar gols recairiam sobre pontas ou chamados 'falsos nove', enquanto a criação de jogadas ficaria a cargo de alas ou meio-campistas que transitam por todo o campo. Essa mudança é reflexo da dinâmica atual das equipes, que demanda atributos físicos e táticos distintos dos exigidos no passado.
O novo perfil dos artilheiros
O impacto dessa mudança é visível nos dados de artilharia da competição. Entre os cinco principais goleadores da Copa, apenas o norueguês Erling Haaland é classificado como um camisa 9 clássico. Os demais jogadores do topo da lista, Lionel Messi, Kylian Mbappé, Harry Kane e Jude Bellingham, não atuam como centroavantes de ofício.
Esses atletas costumam se movimentar por diversas zonas do ataque e frequentemente recuam para fora da área para auxiliar na organização do jogo. O capitão da França, Kylian Mbappé, que divide a liderança de artilharia com Messi, exemplifica esse modelo ao circular por todo o setor ofensivo e pressionar os adversários em vez de permanecer fixo na área.
A tendência também é observada em equipes que optam por jogar sem um centroavante fixo, como Marrocos e Espanha. Ambas as seleções replicaram o modelo europeu de utilizar meio-campistas como 'falso nove' ou utilizar pontas para servirem como a principal referência de ataque.
O desaparecimento do armador centralizado
Outra mudança significativa ocorre na função de armação. O modelo de camisa 10 tradicional — o jogador com visão de jogo excepcional, mas muitas vezes com resistência física limitada — está perdendo espaço para armadores modernos que também contribuem defensivamente.
No ranking dos dez jogadores com mais assistências do torneio, apenas Michael Olise atuou como um camisa 10 clássico, embora tenha se destacado por sua velocidade e capacidade de drible. Três dos quatro semifinalistas — Espanha, França, Inglaterra e Argentina — contam com armadores que possuem alta mobilidade, como Dani Olmo, Jude Bellingham e o próprio Olise.
Na Argentina, Lionel Messi mantém uma característica de armador, embora tenha passado grande parte da carreira atuando como ponta ou falso nove. O cenário geral aponta para um futebol onde a especialização de uma única zona do campo é substituída pela capacidade de o jogador desempenhar múltiplas funções durante os 90 minutos.
