Rússia treinou 200 militares na China com autorização de ministro da Defesa
Delegação das Forças Armadas russas participou de exercícios em instalações chinesas com foco em defesa contra armas radiológicas, químicas e biológicas.
Por Diário Local
Um treinamento militar secreto realizado pela China com forças russas foi autorizado pessoalmente pelo ministro da Defesa da Rússia, Andrei Belousov, segundo documentos obtidos pela Reuters. O envolvimento de militares de alto escalão mostra a importância da cooperação entre Rússia e China, tema que gera preocupação na Europa.
Um decreto interno emitido por Belousov em agosto de 2025 autorizou que uma delegação das Forças Armadas da Rússia viajasse à China para participar de exercícios de treinamento em instalações do Exército de Libertação Popular (PLA). Relatórios descrevem imagens de soldados russos recebendo instruções de militares chineses, observando um modelo de reator nuclear e aprendendo sobre proteção contra ameaças radiológicas, químicas e biológicas.
Segundo reportagem anterior da Reuters com base em informações de agências de inteligência europeias, a China treinou cerca de 200 militares russos em novembro de 2025, alguns dos quais participaram posteriormente da guerra na Ucrânia. A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou em 15 de junho que Bruxelas confirmou por seus próprios canais que o treinamento ocorreu.
O que foi ensinado
Um documento russo detalhava um dos cursos de treinamento: uma sessão de três semanas realizada em uma instalação militar em Pequim, em novembro de 2025, focando em proteção contra ameaças radiológicas, químicas e biológicas. Os documentos descrevem soldados russos aprendendo sobre reconhecimento químico, reconhecimento de radiação e proteção de sistemas de ventilação contra contaminação.
A inclusão de treinamento relacionado a armas radiológicas, biológicas e químicas reforça o caráter estratégico dos intercâmbios militares, segundo autoridades europeias que pediriam anonimato due à sensibilidade das informações. O tema é considerado sensível para forças militares em geral.
Reação da China e posição europeia
O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou, em nota, que sua posição sobre a guerra na Ucrânia permanece a mesma e classificou as acusações como totalmente infundadas. Pequim afirma manter neutralidade no conflito e se apresenta como mediador de paz. Os ministérios da Defesa da Rússia e da China não responderam aos pedidos de comentário da Reuters.
Países europeus, que consideram a Rússia sua principal ameaça à segurança desde a invasão da Ucrânia em 2022, acompanham com preocupação o fortalecimento dos laços entre Moscou e Pequim. Dentro do bloco de 27 países da União Europeia, o debate ocorre sobre a necessidade de novas medidas em resposta ao treinamento militar, apesar da relação econômica mantida com a China. Um funcionário europeu afirmou que o bloco precisa considerar o papel da China como um facilitador da guerra da Rússia.
Participantes do treinamento
O coronel-general Rustam Muradov, vice-comandante das forças terrestres russas, liderou a delegação russa, segundo documentos militares analisados pela Reuters. O major-general chinês Li Jinsun, chefe da Academia Militar do PLA de Defesa Radiológica, Química e Biológica, participou da abertura de um dos cursos. O major-general russo Vitaly Gerasimov participou de um treinamento realizado em Bengbu.
Autoridades europeias identificaram como signatários de um acordo de 2 de julho que deu base ao treinamento o major-general russo Rustam Khusainov e o coronel sênior chinês Sun Dayun.
Críticas na Rússia
Andrei Kartapolov, parlamentar russo que preside o comitê de Defesa da Câmara Baixa do Parlamento, afirmou à emissora russa RTVI que a reportagem sobre o treinamento era um completo absurdo e disse que as Forças Armadas russas não tinham nada a aprender com a China.
Relatórios internos das Forças Armadas russas obtidos pela Reuters apontaram pontos positivos e limitações nos treinamentos. Um documento sobre exercícios realizados em Nanjing elogiou a qualidade dos equipamentos, o uso de simuladores e o conhecimento teórico dos instrutores chineses, mas destacou especificamente a falta de experiência de combate da China. A Rússia acumulou ampla experiência em mais de quatro anos de guerra na Ucrânia, enquanto a China, apesar de possuir uma força militar numerosa e tecnologicamente avançada, não participa de um conflito há décadas.
