Arquivo Nacional negocia com a Caixa digitalização de cadernetas de poupança de pessoas escravizadas
Acordo entre Arquivo Nacional e Caixa busca preservar 158 documentos que registram movimentações de pessoas escravizadas no século 19
Por Davy Albuquerque
O Arquivo Nacional negocia com a Caixa Econômica Federal um Acordo de Cooperação Técnica para a digitalização de 158 cadernetas de poupança pertencentes a pessoas escravizadas no século 19. Os documentos foram localizados em um levantamento realizado pela Caixa a pedido do Ministério Público Federal (MPF).
O inquérito civil instaurado pelo MPF apura a preservação e a destinação do patrimônio documental. Os registros revelam nomes, profissões, endereços e movimentações financeiras de pessoas escravizadas que conseguiam formar pecúlio antes da abolição.
Como funciona o acordo?
As tratativas entre as instituições avançam em etapas. Segundo a diretora-geral do Arquivo Nacional, Monica Lima, houve uma primeira visita técnica e uma reunião online com a equipe da Caixa, seguida pelo envio de um modelo de acordo para avaliação.
A próxima fase prevê uma nova inspeção técnica no acervo. O objetivo é avaliar o estado de conservação dos livros contábeis para garantir que a digitalização preserve o material e amplie o acesso da sociedade e de pesquisadores aos documentos.
Os registros permitem compreender a história da escravidão e a formação do sistema financeiro no país, além de investigar o destino dos valores depositados nas contas.
O que revelam as cadernetas?
Os documentos mostram a realidade de pessoas escravizadas em centros urbanos, como os chamados "escravos de ganho". Esse grupo era autorizado a exercer atividades remuneradas e podia guardar parte dos rendimentos, visando, em muitos casos, a compra da própria alforria ou de familiares.
Um dos registros pertence a Lydia, uma lavadeira de 27 anos, que vivia na região da Pequena África, no Centro do Rio de Janeiro. A caderneta revela que os valores depositados por ela permaneceram sem movimentação até o ano de 1931.
A investigação do MPF foi motivada por uma representação de uma organização do movimento negro que questiona o destino das poupanças registradas em nome de pessoas escravizadas. O procurador da República Júlio Araújo confirmou a necessidade do inquérito para apurar o tema.
A Caixa afirmou que reconhece a relevância histórica do acervo e que está em tratativas com o Arquivo Nacional para garantir a preservação e a publicidade da documentação.
