PF investiga citação de delegado em áudio sobre esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC
Áudio interceptado menciona nome de ex-diretor do Deic em contexto de gestão de conflitos em organização criminosa, segundo transcrição da decisão que autorizou operação.
Por Diário Local
Um delegado da Polícia Civil de São Paulo é citado em áudio interceptado pela Polícia Federal durante investigação de uma rede bilionária de lavagem de dinheiro. A operação foi deflagrada na sexta-feira (3/7). Segundo transcrição da decisão judicial que autorizou a ação, o áudio menciona repasse de R$ 100 mil em contexto de gestão interna de organização criminosa.
O delegado Fabio Pinheiro Lopes, ex-diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), é mencionado por Romany Cutolo Bonete. Bonete é apontado como intermediário entre integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e Victor Henrique de Oliveira Shimada, descrito como líder do esquema. "Eu tenho que mandar R$ 100 mil pro Fabio Caipira do Deic, entendeu? Eu tenho que mandar e ponto, acabou", diz Bonete no áudio, conforme transcrição reproduzida na decisão. A gravação foi enviada na madrugada de 15 de maio de 2024.
Na mesma conversa, Bonete menciona um indivíduo apelidado de "Ratão", descrito como figura de alta periculosidade. Ele afirma que Shimada teria usado indevidamente dinheiro dessa pessoa. "Ratão é bem pior que o Feu, é bem pior que os meninos de Dubai, meu. E o cara tá aqui no Brasil", afirmou Bonete.
Segundo a Polícia Federal, o diálogo, inserido em um contexto de "gestão de conflitos internos de uma organização criminosa", indica a "possível prática de corrupção ativa" e merece "aprofundamento investigativo específico". O delegado Fabio Pinheiro Lopes foi procurado para comentar a citação. Até o momento não retornou.
Como começou a investigação
A investigação teve origem na apreensão do celular de Ygor Fokin Saviolli, quando foi detido no Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale, na Flórida. No aparelho, foram encontrados fotos e vídeos de grandes quantias de dinheiro, além de mensagens criptografadas indicando ilícitos relacionados ao narcotráfico.
O setor de Investigações de Segurança Interna do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos notificou a Polícia Federal sobre conexões entre cidadãos brasileiros e uma organização criminosa especializada em lavagem de capitais por meio de dinheiro em espécie e empresas de fachada.
O Grupo Especial de Investigações Sensíveis (Gise) da Polícia Federal passou a investigar o caso. Descobriu que Saviolli e Shimada comandavam o grupo criminoso por meio de duas empresas: Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda e Hi Quality Importação, Comércio e Distribuição Ltda. Em março deste ano, a corporação representou pelas medidas cautelares contra os alvos.
Sanção americana prejudicou operação
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou Victor Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira na quarta-feira (1º/7) por suspeita de envolvimento com o PCC. Segundo autoridades da Polícia Federal, a decisão prejudicou as investigações que estavam em andamento.
Os mandados foram deferidos pela Justiça Federal em junho, mas ainda não haviam sido cumpridos. A equipe de investigação tentava descobrir o paradeiro exato de Shimada, principal alvo, e traçar a melhor estratégia para capturá-lo. A exposição do caso na mídia após a sanção agravou ainda mais a situação.
"Houve uma antecipação. Mas, de fato, se não houvesse essa designação, talvez o desfecho fosse outro e nós teríamos localizado essa pessoa, mas infelizmente não localizamos. Então, houve prejuízo à investigação", declarou o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Autoridades da corporação informaram que teria havido descoordenação entre o FBI e a PF. Caso tivessem sido avisadas sobre a sanção, afirmaram, a operação poderia ter sido deflagrada em conjunto de forma mais estratégica.
Ministério Público não confirma ligação com PCC
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, principal autoridade do Ministério Público de São Paulo nas investigações sobre o PCC, descartou que o órgão tenha informações relacionando Victor Henrique de Oliveira Shimada à facção criminosa. "No caso do Ministério Público de São Paulo, a gente não tem qualquer informação ligando esses indivíduos ao PCC", afirmou.
Gakiya informou que provas reunidas pela Polícia Federal dos Estados Unidos (FBI), pelo Departamento de Estado ou por outras agências americanas sobre a suposta ligação ainda não foram compartilhadas com o MPSP. A corporação segue aguardando o envio de documentação que possa corroborar as acusações feitas pelas autoridades norte-americanas.
