Denúncias e reclamações sobre erro médico crescem 36% na rede pública do Distrito Federal
Dados da Ouvidoria do GDF mostram aumento de manifestações; mortes de gestantes em Samambaia geram alerta na rede pública.
Por Redação Diário Local
As denúncias e reclamações sobre possíveis erros médicos na rede pública de saúde do Distrito Federal registraram um aumento de 36,17% em 2026. De acordo com dados do painel da Ouvidoria do GDF, foram contabilizadas 64 manifestações entre janeiro e 7 de agosto, comparadas a 47 registros no mesmo período do ano passado.
O levantamento aponta que as 64 ocorrências deste ano são compostas por 56 reclamações e 8 denúncias. Em 2025, o total de 47 manifestações somava 34 reclamações e 13 denúncias. Em nota, a Secretaria de Saúde (SES-DF) negou que os números reflitam um aumento real de casos.
O cenário de alerta foi intensificado por dois óbitos de gestantes no Hospital Regional de Samambaia (HRSam) durante o mês de julho. No dia 10 de julho (10), Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, faleceu durante o parto. A Polícia Civil (PCDF) foi acionada por familiares para apurar possíveis falhas no atendimento, enquanto a SES-DF também realiza investigação interna.
O que aconteceu no Hospital de Samambaia?
Três dias após o primeiro caso, outra paciente, Maria Aparecida Galdino dos Santos, também faleceu durante o parto no mesmo hospital. A família relatou que a paciente solicitou uma cesárea, mas o pedido não teria sido atendido pela equipe médica.
Segundo o esposo da paciente, Douglas Cardoso, o parto ocorreu por via normal e houve uma hemorragia após a equipe perceber, tardiamente, que parte da placenta permanecia no corpo da paciente. O diretor do HRSam, Rafael Amaral Guimuzzi, afirmou que ambos os casos estão sob apuração para identificar eventuais falhas de atendimento.
Outros casos registrados na rede
O aumento das manifestações reflete episódios registrados em outras unidades da rede pública. Em abril, um médico da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Brazlândia foi indiciado pela PCDF por homicídio culposo, sob suspeita de negligência em um atendimento que resultou na queda de uma paciente de uma cadeira de rodas.
No mês de março, em uma unidade de atendimento do Gama, Francisco Vieira, de 69 anos, morreu após sofrer um ataque cardíaco. A família do paciente alegou que a demora na realização de exames fundamentais após a entrada na unidade influenciou no desfecho do quadro de saúde.
A Justiça também tem intervindo em casos de falhas hospitalares. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) condenou o GDF por uma falha no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib) que resultou em sequelas neurológicas em uma criança. Em outro processo, o governo foi condenado a indenizar uma paciente que teve uma compressa esquecida em seu abdômen após cirurgia realizada no Hospital Regional de Santa Maria.
Por que o sistema enfrenta esses problemas?
Especialistas em gestão pública apontam que a dificuldade na execução eficiente dos recursos é um fator crítico. Segundo a especialista Thaynara Melo, o Distrito Federal possui um alto gasto por habitante, mas enfrenta gargalos como filas de espera que chegam a sete horas e um passivo de mais de 900 mil procedimentos pendentes.
Para a especialista, a sobrecarga dos profissionais e o represamento de atendimentos podem aumentar a probabilidade de erros. Ela sugere que a solução passa pela ampliação de equipes de saúde da família, melhoria da gestão interna e redução das filas de espera.
O presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF), Elissandro Noronha dos Santos, destacou ainda problemas na gestão de acesso às emergências. Segundo ele, o uso de sistemas de classificação de risco (bandeiras) muitas vezes acaba negando o atendimento inicial por falta de informação à população.
