Presença de pessoas em situação de rua é principal preocupação em enquete na Grande Tijuca
Enquete com moradores revela que vulnerabilidade social preocupa mais que crimes; associação local relata aumento de pessoas em praças e calçadas.
Por Redação Diário Local
A presença de pessoas em situação de rua tornou-se o tema de maior preocupação para os moradores e comerciantes da Grande Tijuca, no Rio de Janeiro. Em enquete realizada na região, o assunto recebeu 45,5% dos votos, ficando à frente da preocupação com roubos e furtos, que obteve 36,6%.
O aumento da visibilidade dessa população é relatado pela Associação Empresarial e de Moradores da Grande Tijuca (Nova Tijuca). Segundo o presidente da entidade, João Alberto Britto, os relatos de pessoas ocupando praças, calçadas, marquises e entradas de estabelecimentos tornaram-se mais frequentes nos últimos três ou quatro anos.
Britto pontua que o crescimento da população em situação de rua foi significativo no período pós-pandemia, tanto na Grande Tijuca quanto em todo o município do Rio de Janeiro. A presença é observada em diferentes proporções em praticamente todos os bairros da região, com exceção do Alto da Boa Vista, que apresenta menor incidência devido ao perfil residencial e à menor densidade populacional.
Por que a visibilidade é maior em áreas comerciais?
A concentração de pessoas em determinados locais pode estar ligada a estratégias de sobrevivência. De acordo com o sociólogo Dário de Sousa e Silva Filho, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), regiões comerciais e de grande circulação oferecem mais chances de obter alimentos, doações, renda informal e abrigo temporário.
O professor ressalta ainda que áreas com grande fluxo de pessoas e proximidade de serviços públicos acabam dando mais visibilidade ao fenômeno. Silva Filho defende que é necessário afastar o pressuposto de que essas pessoas são potenciais agentes de violência, destacando que elas são, com frequência, sujeitas à violência e à discriminação.
Entre os fatores que levam ao desabrigo estão o desemprego prolongado, a violência doméstica, condições psiquiátricas, o abandono familiar e a perda de moradia, situações que são agravadas pela pobreza.
Como funciona o atendimento oficial na região?
A Secretaria municipal de Assistência Social informou que realiza abordagens diárias nos sete bairros que compõem a Grande Tijuca. Entre janeiro e junho de 2026, foram registrados 13.504 atendimentos, que resultaram em 561 acolhimentos institucionais.
A secretaria esclarece que os números não representam o total de pessoas atendidas, pois um mesmo indivíduo pode passar por múltiplas abordagens. Além disso, o acolhimento em unidades não é obrigatório e depende da concordância da pessoa. O serviço inclui orientação para emissão de documentos, acesso a benefícios e encaminhamento para abrigos.
O suporte é complementado pelo Consultório na Rua, vinculado à Secretaria municipal de Saúde. As equipes prestam atendimentos médicos, vacinação, testes rápidos e acompanhamento de pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas sob a perspectiva da redução de danos.
Quais são os desafios para a rede de apoio?
O Fórum Permanente de Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua aponta que a abordagem social precisa estar articulada a políticas de moradia, trabalho e renda. O coordenador do fórum, Cláudio Santos, critica a centralização da rede, já que o município dispõe de apenas dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros Pop): um no Centro e outro em Bonsucesso.
Para Santos, a descentralização facilitaria o acesso a serviços essenciais como higiene, alimentação e saúde. Ele aponta ainda que fatores como horários rígidos nas unidades de acolhimento e a impossibilidade de levar animais de estimação — que muitas vezes servem como companhia e proteção — influenciam a recusa de pessoas em aceitar as vagas disponíveis.
