Pesquisa mostra que 49% dos brasileiros afirmam já ter dado tapas em crianças após diálogo ser defendido
Levantamento da Quaest revela que, embora a maioria defenda o diálogo, práticas de agressão física e verbal ainda são comuns no país
Por Davy Albuquerque
O uso de violência física e verbal contra crianças permanece disseminado na cultura brasileira, apesar de a maioria da população defender o diálogo como método de educação. Segundo pesquisa realizada pela Quaest, a pedido do Instituto Infinis, 62% dos entrevistados afirmaram já ter gritado com uma criança e 49% relataram já ter dado tapas.
O levantamento, que ouviu 2.202 brasileiros entre maio e junho de 2026, revelou ainda que 27% dos respondentes declararam ter batido em crianças utilizando objetos. Embora os comportamentos agressivos continuem frequentes, o estudo aponta uma redução nas agressões com objetos em comparação à primeira edição da pesquisa, ocorrida em 2023.
Os pesquisadores indicam que a violência contra crianças tende a ser um comportamento que atravessa gerações, sendo replicado por quem sofreu situações semelhantes na infância. Para a diretora-executiva do Instituto Infinis, Márcia Kalvon, entender essas percepções é fundamental para orientar políticas de prevenção e interromper o ciclo de violência.
A discrepância entre o discurso e a prática é evidente nos dados. De acordo com a Quaest, 9 em cada 10 entrevistados consideram que o diálogo é a melhor forma de corrigir comportamentos infantis, mas os índices de agressão verbal e física mostram uma realidade distinta no cotidiano das famílias.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou um volume expressivo de ocorrências no período. Somente nos quatro primeiros meses de 2026, foram contabilizadas 115.814 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes em todo o país.
Percepção sobre trabalho infantil
O estudo também trouxe dados sobre o trabalho infantil no Brasil. Apesar de 93% dos entrevistados afirmarem que os estudos devem ser a prioridade de crianças, 61% consideram aceitável que elas trabalhem. Sobre o público adolescente, 88% defendem o trabalho caso seja por desejo do jovem, mas 71% acreditam que eles devem trabalhar quando os pais determinarem.
A pesquisa também revelou um baixo nível de conhecimento sobre a legislação vigente. Cerca de 71% dos respondentes não souberam citar leis de proteção à infância, mesmo após debates públicos recentes envolvendo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Em relação à intervenção social, 62% dos entrevistados afirmaram que não interferem ao presenciarem atos de violência. Desse grupo, metade declarou não considerar correto interceder por entender que a situação se trata de uma atitude particular da família.
A versão completa da pesquisa "Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes" será apresentada em setembro, durante o 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, promovido pelo Instituto Infinis.
