Relatório da PF aponta que Voepass omitia panes para burlar fiscalização e manter aeronaves em voo
Relatório final aponta cultura de omissão de registros técnicos e pressão contra funcionários para manter a disponibilidade da frota
Por Redação Diário Local
A Polícia Federal (PF) concluiu, em relatório final sobre o acidente que matou 62 pessoas, que a companhia aérea Voepass omitia o registro de panes técnicas para burlar a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O objetivo da prática era manter as aeronaves em operação e evitar que ficassem retidas em solo para manutenção.
Segundo o documento, a falha que contribuiu para a queda do voo 2283 não foi um evento isolado, mas o resultado de condutas reiteradas de omissão na manutenção dos sistemas de degelo. O relatório aponta que a gestão da companhia priorizava a disponibilidade da frota em relação à segurança operacional.
Como funcionava a omissão de dados?
A investigação identificou que a omissão de registros no Technical LogBook (TLB) — o livro oficial de registros técnicos das aeronaves — era uma prática institucionalizada. Tripulantes relataram que anomalias eram resolvidas apenas de forma verbal com as equipes de manutenção, impedindo que os problemas fossem detectados pela Anac.
Em depoimentos, comandantes indicaram que aviões eram frequentemente despachados com falhas nos sistemas de degelo. Nesses casos, cabia ao piloto decidir por conta própria o nível de voo para evitar a formação de gelo. O delegado Carlos de Eduardo Palhares, chefe da Perícia Científica da PF em Brasília, afirmou que havia registros de voos onde, mesmo com falhas detectadas por pilotos anteriores, comandantes assinalavam que não havia nada a reportar.
Outras irregularidades apontadas
O relatório da Polícia Federal listou outras quatro práticas irregulares dentro da cultura da empresa. Entre elas, a manipulação da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), onde componentes inoperantes eram substituídos por outros também defeituosos para renovar prazos de reparo sem realizar o conserto efetivo.
A PF também registrou relatos de pressão e coação da direção. Funcionários afirmaram que a negligência técnica era mantida por meio de ameaças de demissão, com instruções para que falhas fossem formalizadas apenas na base de Ribe Preto (SP), evitando o bloqueio de aviões em outros aeroportos. Outro ponto citado foi o uso de peças de aeronaves abandonadas sem passar pelas inspeções exigidas.
Por fim, o documento mencionou a seleção de tripulantes menos experientes. O comandante do voo acidentado teria sido promovido rapidamente, mesmo sem atingir as 1.000 horas de voo no equipamento ATR exigidas pelas normas da própria empresa.
O que diz a Voepass
Em nota oficial, a Voepass afirmou que adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação previstos pela Anac. A companhia declarou que a segurança operacional é sua prioridade e que seus treinamentos contemplam medidas para enfrentar condições de formação de gelo, como alterações de altitude e velocidade.
A empresa ressaltou que a tripulação do voo 2283 era composta por profissionais habilitados e que sua atuação é pautada por padrões de segurança internacionais, possuindo certificação de auditoria de segurança operacional desde 2012.
