Estudo resgata a história de moradores do Morro do Castelo antes do desmonte no Rio de Janeiro
Pesquisa de historiadora detalha a vida e o cotidiano das 4.200 pessoas que viviam no bairro antes de ser demolido
Por Redação Diário Local
Uma pesquisa histórica revela detalhes sobre o cotidiano e a composição social dos moradores do Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, antes do processo de desmonte da área ocorrido no início do século XX. O estudo detalha a vida de milhares de pessoas que habitavam o bairro, transformando a visão de um local que é frequentemente tratado apenas como um cenário de fotografias antigas.
De acordo com a dissertação da historiadora Cláudia Míriam Quelhas Paixão, apresentada à Universidade Federal Fluminense (UFF), cerca de 4.200 pessoas viviam no morro em setembro de 1921. Naquele período, ainda existiam 408 prédios na região, pouco antes de o processo de arrasamento transformar a paisagem urbana.
O trabalho baseia-se na análise de documentos da 5ª Delegacia de Polícia, fotografias, jornais e depoimentos de antigos moradores recuperados pelo projeto Arquivo Vivo, do Museu da Imagem e do Som (MIS). A pesquisa busca enxergar o bairro pelo ponto de vista de quem vivia nele, e não apenas pela ótica das autoridades e engenheiros responsáveis pelas reformas.
Quem eram os moradores do Castelo?
Os registros indicam que o bairro não era composto por uma massa uniforme, mas por uma comunidade diversificada de trabalhadores. Entre as profissões identificadas nos livros da 5ª Delegacia de Polícia estão alfaiates, carpinteiros, carregadores, carroceiros, motoristas, domésticas, eletricistas, ferreiros, marinheiros, operários, quitandeiros e vendedores ambulantes.
A localização do Morro do Castelo era estratégica para a sobrevivência dessa população. Por estar próximo a pontos centrais de atividade, como a Praça XV, a Rua do Carmo e a região da Misericórdia, os moradores podiam se deslocar a pé para encontrar trabalho diariamente em comércios, repartições e mercados.
Além do comércio externo, o próprio bairro possuía uma economia interna ativa, com a presença de armazéns, quitandas, botequins e pequenos estabelecimentos que geravam ocupação e renda para a comunidade local.
A rotina e a fé no bairro
A vida social e religiosa era um pilar fundamental da comunidade. A Igreja de São Sebastião, por exemplo, era um ponto central que marcava o calendário dos moradores com festas de santos, celebrações de Natal e a Semana Santa. Eventos como a Festa do Divino e celebrações religiosas em outras localidades faziam parte da rotina das famílias.
O estudo também recupera histórias de famílias específicas, como a de Florinda Alói e seu irmão Francisco Alói Moreno. Os relatos mostram como o deslocamento forçado pela demolição alterava drasticamente a vida dos residentes, que muitas vezes eram realocados para habitações precárias em outras áreas da cidade após perderem suas casas e laços comunitários.
