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21ª CineOP encerra com debates sobre preservação, IA e políticas públicas para o cinema

Festival em Ouro Preto consolidou reflexões sobre memória audiovisual, soberania de dados e educação cinematográfica como estratégias para o futuro do cinema brasileiro.

Por Diário Local

A 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto encerrou consolidando sua posição como um dos principais espaços de debate sobre o futuro do audiovisual brasileiro. O festival, realizado sob o tema "Memória Viva do Cinema Brasileiro", reuniu pesquisadores, realizadores, arquivistas, gestores públicos e educadores para discutir políticas capazes de preservar a memória cinematográfica do país.

Para a coordenadora geral da mostra, Raquel Hallak, a preservação do cinema é essencial para a identidade nacional. "A 21ª CineOP reafirmou que preservar o cinema é preservar a nossa capacidade de lembrar, compreender quem somos e imaginar o futuro. Encerramos esta edição com a convicção de que o patrimônio audiovisual brasileiro precisa permanecer no centro das políticas culturais e da vida da sociedade", declarou.

O conceito foi reforçado pelo escritor Frei Betto durante a programação. "O papel do cinema, e eu diria de toda a arte, é manter viva a memória", afirmou.

Debates sobre representatividade e acervos

Grande parte das discussões ocorreu no 21º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, que colocou em pauta o depósito legal audiovisual e a necessidade de ampliar as políticas públicas de preservação. Um dos questionamentos centrais foi a representatividade dos acervos brasileiros.

Daniela Mazzilli, diretora da Cinemateca Capitólio, provocou o debate ao perguntar: "Que memória a gente vai levar para o futuro?". Ela defendeu mecanismos capazes de preservar também produções independentes, regionais e periféricas, ampliando o conceito de patrimônio audiovisual.

Inteligência artificial e soberania nacional

As transformações tecnológicas ocuparam posição central na programação do festival. A inteligência artificial deixou de ser tratada apenas como ferramenta e passou a ser discutida sob a perspectiva da soberania nacional e gestão dos dados culturais.

Sheila Mueller, diretora-geral adjunta do Arquivo Nacional, resumiu o desafio: o Brasil precisa decidir "se o Estado brasileiro vai participar dessa transição como sujeito ou se será objeto dela". Ao mesmo tempo, especialistas apresentaram experiências práticas de uso de IA para transcrição de documentos, organização de acervos e ampliação do acesso ao patrimônio audiovisual.

Carta de Ouro Preto propõe medidas concretas

A divulgação da Carta de Ouro Preto marcou o encerramento do encontro de arquivos. O documento, elaborado a partir das discussões, propõe medidas como fortalecimento do depósito legal, investimentos em infraestrutura pública para armazenamento de acervos digitais, regulamentação profissional dos preservadores audiovisuais e diretrizes éticas para o uso da inteligência artificial.

A carta também defende que o arquivo audiovisual seja compreendido como elemento de soberania nacional, identidade e produção de conhecimento. Um ponto específico inclui moção pela preservação do acervo do projeto Vídeo nas Aldeias, considerado fundamental para a memória dos povos originários.

Educação audiovisual em foco

A educação cinematográfica também ganhou espaço de destaque durante o XVIII Fórum Latino-Americano de Educação, Cinema e Audiovisual (Rede Kino). Professores, pesquisadores e realizadores defenderam uma formação crítica que reconheça o cinema como linguagem, patrimônio cultural e instrumento de cidadania.

A Carta da Rede Kino reforçou a necessidade de regulamentar a Lei nº 13.006/2014, implementar o Programa Nacional de Cinema nas Escolas, ampliar a formação de professores e incluir o cinema de forma explícita na futura reformulação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O documento também alertou para os riscos da dependência de plataformas digitais estrangeiras e defendeu o desenvolvimento de tecnologias públicas nacionais voltadas à educação.

Narrativas histórias ampliadas

Na temática histórica, a programação reafirmou que preservar significa revisar narrativas e ampliar perspectivas. A Mostra Histórica, dedicada aos primeiros filmes dirigidos por mulheres no país, contribuiu para incorporar experiências historicamente invisibilizadas à memória do cinema brasileiro.

O lançamento do livro "Memória Viva do Cinema Brasileiro", publicação comemorativa dos 20 anos da CineOP, registrou reflexões acumuladas pelo evento ao longo de sua trajetória.

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.