Obra de José Saramago provoca reflexão sobre ética e empatia na era das redes sociais
Leitura de 'Ensaio sobre a cegueira' traz paralelo entre a ficção de Saramago e o comportamento humano nas redes sociais atuais.
Por Redação Diário Local
A obra 'Ensaio sobre a cegueira', escrita por José Saramago, propõe uma reflexão sobre a ética e a preservação da empatia em um contexto de comportamentos voltados para o espetáculo digital. O romance utiliza uma distopia para questionar se o ser humano mantém sua integridade moral quando não está sob o olhar constante da sociedade ou das câmeras.
No enredo, uma epidemia de cegueira atinge a população, resultando em um cenário de caos, violência e perda de valores. Em meio à chamada "treva branca", uma única mulher permanece enxergando e decide não revelar sua condição para se integrar ao grupo e prestar auxílio aos demais.
A personagem assume um papel de liderança silenciosa, organizando a distribuição de alimentos, cuidando da higiene e protegendo os indivíduos mais vulneráveis. O gesto é realizado sem a expectativa de aplausos ou qualquer busca por reconhecimento público, servindo como um contraponto ao comportamento de busca por engajamento comum nas redes sociais.
A narrativa sugere que a cegueira descrita por Saramago extrapola o aspecto físico, funcionando como um catalisador para o egoísmo e a indiferença. Com a perda da visão, os indivíduos perdem a vergonha diante de atos de maldade, o que permite uma análise sobre a sensação de impunidade presente em ambientes digitais.
O que a obra revela sobre a sociedade?
O livro levanta a hipótese de que a ausência de vigilância pode facilitar condutas desonestas ou cruéis. Segundo a obra, o desafio da dignidade humana reside justamente na capacidade de agir de forma correta por preocupação genuína com o próximo, e não apenas por medo do julgamento ou desejo de recompensa.
A postura da protagonista demonstra que, mesmo diante da erosão da moralidade e do colapso dos valores sociais, é possível manter a humanidade. A personagem atua como um elemento de esperança ao priorizar o bem-estar coletivo em um cenário de degradação social.
Paralelos com a realidade recente
As questões levantadas pelo romance estabelecem conexões com o período da pandemia de Covid-19. Durante a crise sanitária, observou-se uma dualidade de comportamentos no país, alternando entre episódios de desprezo pela dor alheia e manifestações intensas de solidariedade.
De um lado, houve registros de indiferença e falta de responsabilidade por parte de certas autoridades. De outro, a sociedade viu o esforço de profissionais de saúde, voluntários e campanhas de doação que cuidavam de vizinhos e desconhecidos de forma altruísta.
Assim, a leitura de Saramago funciona como uma lente para observar o comportamento humano contemporâneo. A obra reforça que a preservação da empatia e o cuidado mútuo são fundamentais, independentemente da presença de dispositivos de registro ou da busca por visibilidade online.
