Livro premiado resgata história de cantora que foi 'apagada' após Proclamação da República
Obra da linguista Andrea Carvalho Stark venceu o Prêmio Jabuti e reconstrói a trajetória da primeira cantora lírica do Segundo Reinado.
Por Redação Diário Local
A trajetória de Augusta Candiani, considerada a primeira cantora lírica do Segundo Reinado, foi reconstruída em um livro vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026. A obra escrita pela linguista Andrea Carvalho Stark detalha a vida da artista que, após a Proclamação da República, teve sua história apagada da memória cultural brasileira.
Nascida em Milão, na Itália, Candiani estreou no Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1844, interpretando a protagonista da ópera Norma. Durante cerca de 40 anos, a cantora atuou em diversos gêneros, incluindo peças dramáticas, operetas e comédias, além de se aproximar da música popular com lundus e modinhas.
Quem foi Augusta Candiani?
Conhecida como a 'Deusa da ópera' e 'prima-dona de Pedro II', Augusta Candiani foi uma figura central nos palcos do século XIX. Seus admiradores, apelidados de 'candianistas', promoviam festas e homenagens em sua trajetória, que incluiu apresentações em estados como Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
A versatilidade permitiu que ela trabalhasse com textos de autores como José de Alencar e Martins Pena. A chegada da artista ao país ajudou a retomar o interesse do público brasileiro pelo gênero da ópera em um período de baixa atividade.
Desafios pessoais e disputas judiciais
A biografia também reconstitui períodos difíceis da vida privada da cantora. O casamento com Gioacchino Candiani terminou em 1845, resultando em um processo de divórcio no qual a artista relatou sofrer violência doméstica e afirmou ser a responsável pelo sustento do marido.
De acordo com a pesquisa de Stark, embora Candiani sustentasse o cônjuge com recursos de sua própria família, ela perdeu o acesso ao patrimônio, que ficou sob controle de Gioacchino. Em disputas judiciais realizadas entre 1853 e 1854, a cantora também enfrentou acusações de ter deixado a residência grávida e acabou perdendo a guarda da filha, Teresa Cristina.
Apesar da exposição pública causada por trocas de acusações nos jornais da época, os registros históricos indicam que a carreira de Candiani não foi interrompida, mantendo o reconhecimento do público nos teatros.
Por que a história foi esquecida?
Augusta Candiani faleceu em Santa Cruz, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1890, apenas três meses após a Proclamação da República. A mudança de regime político em 1889 é apontada como um dos fatores que influenciaram o apagamento de sua trajetória da memória nacional.
