Reportagem de Luiz Carlos Barreto na Bahia impulsionou carreira no Cinema Novo
Encontro entre repórter e Glauber Rocha durante filmagem de 'Barravento' resultou em parceria histórica para o cinema brasileiro
Por Redação Diário Local
Uma reportagem realizada pelo jornalista Luiz Carlos Barreto na Bahia, em 1961, foi o marco inicial de sua transição para o cinema e de sua colaboração com o movimento Cinema Novo. O encontro com o diretor Glauber Rocha, ocorrido durante as filmagens de “Barravento”, estabeleceu uma parceria que mudaria o rumo profissional do repórter e a estética das telas brasileiras.
A trajetória teve início quando Barreto desembarcou na Bahia para produzir uma série de matérias para a revista “O Cruzeiro”. Em Salvador, o jornalista foi apresentado ao trabalho de Glauber Rocha por meio de um curta-metragem, o que o levou a acompanhar as gravações do primeiro longa do diretor, na praia de Buraquinho.
Durante o período de filmagens, o diálogo entre o jornalista e o cineasta sobre estética, fotografia e a construção de uma identidade cultural brasileira foi tão profundo que chegou a interromper o cronograma de gravação. O encontro resultou em uma amizade que uniu o olhar do repórter à proposta de ruptura do cinema nacional.
O impacto da reportagem de 1961
Ao retornar ao Rio de Janeiro, Barreto transformou a experiência em uma reportagem publicada em 4 de fevereiro de 1961, intitulada “Barravento traz Luíza”. O texto apresentava a estreia da atriz Luíza Maranhão e utilizava uma estrutura baseada na força das imagens, onde o texto funcionava como uma expansão da fotografia capturada.
A matéria teve um peso editorial significativo ao ocupar a capa de “O Cruzeiro” com a presença das atrizes Helena Ignez e Luíza Maranhão. Na época, a revista privilegiava celebridades de Hollywood, e a exibição de talentos brasileiros em destaque foi vista por Glauber Rocha como o início de uma revolução cultural e o reconhecimento de um novo cinema ganhando visibilidade.
A convivência entre Barreto e Rocha intensificou-se após as filmagens, com o jornalista hospedando o diretor em Botafogo, no Rio de Janeiro. Nesse período, discutiam roteiros e produção, o que culminou no convite para Barreto colaborar no roteiro de “Assalto ao trem pagador”, dirigido por Roberto Farias.
A transição para a direção de fotografia
A transição definitiva para a técnica cinematográfica ocorreu quando Nelson Pereira dos Santos convidou Barreto para assumir a direção de fotografia de “Vidas secas”. Apesar da resistência inicial por não possuir domínio técnico de estúdio, o convite baseou-se na capacidade do jornalista de "fotografar a verdade" através da observação e do flagrante.
Barreto aplicou sua experiência de fotojornalista para romper com os padrões de iluminação artificial. Em “Vidas secas”, ele utilizou a luz natural e a intensidade do sol do Nordeste como um personagem da narrativa, contribuindo para a estética do Cinema Novo ao expor a aridez e a dureza do cenário de forma realista.
