Vozinha, goleiro de Cabo Verde, ganhou apelido na infância após sofrer bullying dos colegas
O nome surgiu quando o goleiro era criança e costumava voltar emburrado para casa após apanhar dos garotos maiores na rua; o apelido ressurgiu anos depois em sua carreira profissional.
Por Diário Local
Vozinha, goleiro de Cabo Verde que ajuda o país na Copa do Mundo 2026, carrega um apelido que começou como resultado de bullying na infância. Seu nome de batismo é Josimar Dias, e a história por trás dessa alcunha é uma trajetória de superação que o acompanha até os dias de hoje.
Criado pelos avós na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, Josimar não cresceu com os pais. Seu pai estava no serviço militar e sua mãe trabalhava muito. Na infância, ele jogava futebol na rua com meninos mais velhos. Muito competitivo e rebelde, odiava perder, mas acabava levando pancadas dos garotos maiores.
Sempre que apanhava no jogo e não conseguia dar o troco, voltava para casa emburrado, com a cara fechada. As outras crianças começaram a zombar dele, dizendo que ele ia "reclamar com a vozinha" — uma referência aos avós que o criaram. O apelido pegou e se fixou entre os companheiros de brincadeira.
Nos anos que se seguiram, Josimar carregou o apelido de forma natural, como fazem muitos atletas com as alcunhas da infância. Quando começou sua carreira profissional em Angola, porém, a situação forçou o ressurgimento da velha alcunha de um jeito diferente.
Na época, havia outro goleiro chamado Josimar no elenco do time angolano. Para não usar "Josimar II" e se diferenciar, o atleta decidiu ressuscitar o apelido de infância, "Vozinha". A estratégia funcionou: a alcunha virou sua marca registrada no futebol profissional e o acompanha até hoje.
Uma curiosidade adicional envolve o próprio nome de batismo. Josimar Dias recebeu esse nome como uma homenagem ao ex-lateral Josimar, que jogou no Botafogo entre 1981 e 1989 e brilhou na Seleção Brasileira na Copa de 1986.
Para compreender totalmente a origem e o significado do apelido Vozinha, é importante conhecer o contexto linguístico e cultural de Cabo Verde. Embora o português seja o idioma oficial do país, a comunicação cotidiana entre os habitantes das diferentes ilhas acontece principalmente em caboverdiano, também conhecido como crioulo cabo-verdiano.
Essa língua surgiu da mistura do português com idiomas falados na costa da Guiné, durante o período colonial. Apesar de o português ser a língua oficial, o crioulo também teve papel relevante na catequização de escravizados pelas instituições religiosas portuguesas. Até hoje, o idioma ocupa um lugar central na identidade cultural do arquipélago.
O português permanece como o único idioma oficial, utilizado na administração pública, nas leis, na imprensa e no sistema de ensino. Ele serve como um elo de Cabo Verde com a comunidade lusófona e o mundo globalizado.
Já o crioulo é a língua materna da maioria da população. É a língua do afeto, da identidade nacional e das expressões culturais, como a música tradicional. Sua estrutura possui base lexical portuguesa, mas com fortes influências de línguas da África Ocidental, o que a torna única no contexto linguístico africano e português.
Essa dualidade linguística é fundamental para entender como apelidos como "Vozinha" ganham significado profundo em Cabo Verde. A palavra remete não apenas a um momento da infância de Josimar, mas também à forma como a língua crioula carrega a identidade e a história pessoal do povo cabo-verdiano, misturando o português com as raízes culturais africanas.
