União Europeia planeja lançar euro digital para reduzir dependência de sistemas dos EUA
Com respaldo do Banco Central Europeu, a nova moeda digital visa garantir soberania monetária e oferecer pagamentos seguros e estáveis.
Por Diário Local
A União Europeia planeja implementar uma moeda digital estável para fortalecer sua soberania monetária e reduzir a dependência de sistemas de pagamento controlados pelos Estados Unidos. O projeto, que conta com o respaldo do Banco Central Europeu (BCE), visa oferecer uma alternativa segura para pagamentos em lojas, transações on-line e entre pessoas.
A iniciativa surge como uma resposta geopolítica ao cenário internacional. Atualmente, mesmo utilizando o euro, os países europeus dependem fortemente de infraestruturas de pagamento norte-americanas, como as empresas Visa e Mastercard, além de carteiras digitais e aplicativos como Google Pay, Apple Pay e PayPal.
Com a migração crescente de transações para o ambiente digital, o BCE busca garantir que o euro mantenha sua eficácia política e econômica. A proposta foca em proteger a moeda contra choques externos e permitir uma melhor gestão da oferta de dinheiro, acompanhando o movimento de outras economias, como a China, que já utiliza o yuan digital (e-CNY).
O yuan digital chinês já apresenta números expressivos de adoção. Desde os primeiros testes em 2020, o país registrou a criação de mais de 230 milhões de carteiras pessoais e cerca de 18,8 milhões de carteiras corporativas, processando bilhões de transações de varejo.
Proteção ao sistema bancário
Para evitar que o euro digital desestabilize o setor bancário tradicional, o BCE planeja estabelecer salvaguardas robustas. Um dos mecanismos previstos é a imposição de um limite de saldo — que pode chegar a 3 mil euros (R$ 17,7 mil) — para que valores excedentes sejam redirecionados automaticamente para contas bancárias convencionais.
Além disso, a moeda digital não pagará juros, o que deve desestimular que os consumidores utilizem o recurso como substituto direto de contas de poupança. O objetivo é garantir que a ferramenta seja um meio de pagamento e não um competidor dos depósitos bancários, evitando fugas de capital em momentos de crise.
O impacto nas receitas dos bancos também é um ponto de debate. Enquanto o euro digital visa reduzir custos de transação para comerciantes, que hoje pagam taxas entre 0,5% e 1,5%, as instituições bancárias defendem um modelo de negócios viável para custear a nova infraestrutura.
Privacidade e funcionamento
A questão da privacidade é um dos pilares centrais da proposta. O BCE planeja permitir pagamentos diretos entre celulares que preservem uma anonimidade semelhante à do dinheiro físico para pequenas transações cotidianas, enquanto cumpre as normas de combate à lavagem de dinheiro.
A proposta busca afastar comparações com sistemas de monitoramento estatal, como o de crédito social utilizado na China. Especialistas apontam que as proteções de privacidade podem ser equilibradas com medidas de segurança sem criar ferramentas de controle social.
O euro digital terá status de curso legal em toda a zona do euro, o que significa que comerciantes deverão aceitá-lo pelo valor integral, sem taxas adicionais ao consumidor. A moeda terá valor estável, sem a volatilidade característica de ativos como o bitcoin.
Outro diferencial técnico é a capacidade de funcionamento offline. Isso permitirá que o usuário realize pagamentos mesmo em áreas com conexão de internet limitada ou durante quedas de energia, garantindo a utilidade em diversas situações.
O cronograma para a implementação segue etapas definidas. O Comitê de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu já aprovou sua posição sobre o regulamento, abrindo caminho para as negociações finais.
A expectativa é que o marco legal seja adotado ainda este ano. Caso o cronograma avance conforme o planejado, um projeto-piloto deve ser iniciado em 2027, com o lançamento completo da moeda previsto para 2029.
