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Patrimônio

Pesquisa identifica mural em Ouro Preto como painel em memória de mulher escravizada

Especialistas concluem que desenhos em casarão no Centro Histórico representam painel mortuário de pessoa vinda da Costa da Mina

Por Redação Diário Local

Pesquisadores concluíram que um mural descoberto no porão de um casarão no Centro Histórico de Ouro Preto, em Minas Gerais, representa um "painel mortuário" em memória de uma mulher escravizada vinda da Costa da Mina. As conclusões, obtidas após investigação de especialistas, buscam destacar o legado gráfico da África ocidental registrado na parede do imóvel.

O achado, que compreende desenhos em baixo relevo sobre argamassa, é considerado uma raridade no Brasil. Segundo o professor de história da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Francisco Eduardo de Andrade, o trabalho possui valor inestimável para o patrimônio brasileiro, pois não há registros semelhantes no território nacional.

A investigação contou com a colaboração da professora Mariza de Carvalho Soares, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em história da escravidão e África, e da arqueóloga Cláudia Plens, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O grupo de pesquisa chegou à conclusão de que as inscrições poderiam compor uma seleção de episódios da vida da africana para homenagear sua memória.

A análise do conteúdo e a decodificação do painel foram realizadas por meio de um método de análise comparativa. Segundo o professor Andrade, embora as interpretações sejam conjecturais, elas seguem um processo de comprovação consistente e não se baseiam em meras opiniões.

A pesquisa considerou o espaço social e econômico de Vila Rica, atual Ouro Preto, entre os séculos 18 e 19. O estudo buscou conectar a morada onde o painel foi encontrado à rotina da rua, da paróquia e da vila na época.

Quais os riscos ao patrimônio?

Apesar da importância histórica, a equipe de especialistas manifestou preocupação imediata com a preservação do mural. De acordo com o professor Andrade, há sinais de perigo que exigem atenção para garantir a proteção do que foi encontrado.

O docente relatou que o porão do sobrado onde o painel está localizado encontra-se embargado há anos. Além disso, a casa vizinha ao imóvel, que fica no limite da parede onde o painel está situado, apresenta péssimas condições de conservação.

Diante desse cenário, os pesquisadores ressaltam a necessidade de o poder público intervir. O grupo defende que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Prefeitura de Ouro Preto tomem medidas para assegurar a proteção do sítio arqueológico.

O mural já foi cadastrado pelo Iphan como "Inscrições Afrodiaspóricas" e ocupa uma área de 3,70 metros de altura por 1,79 metro de largura. Os grafismos foram realizados diretamente sobre a argamassa de revestimento de uma parede de pedras.

O que compõe o mural?

Entre os elementos visuais identificados no painel estão desenhos de um mamífero de grandes proporções e duas aves pernaltas. A composição também inclui uma embarcação a vela, torres e desenhos de personagens.

A equipe de arqueologia identificou o desenho de 13 personagens agrupadas, além de outras duas figuras próximas a um pilão. O conjunto de imagens representa o que os especialistas chamam de arte parietal específica da África ocidental.

O casarão está localizado na Rua Conde de Bobadela, popularmente chamada de Rua Direita, no Centro Histórico. O imóvel histórico tem uma trajetória de preservação que envolve fatores estruturais do próprio edifício.

Segundo informações de familiares dos proprietários, a conservação do material foi favorecida pela localização do compartimento. O espaço era ventilado, pois possuía uma saída anterior para a Rua das Flores, o que impediu a deterioração causada pela umidade ao longo do tempo.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.