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Desgaste político abre caminho para candidato improvável no Brasil, diz analista

Analista aponta que perda de confiança nos atores tradicionais e esgotamento da polarização lulismo-bolsonarismo criam condições para emergência de novas lideranças.

Por Diário Local

O desgaste da polarização entre lulismo e bolsonarismo abre caminho para o surgimento de um candidato improvável nas próximas eleições presidenciais, segundo análise de Hubert Alquéres, presidente da Academia Paulista de Educação. A perda de confiança nos atores políticos tradicionais, combinada com escândalos e problemas estruturais do país, cria as condições para que novas lideranças emergem rapidamente.

Alquéres aponta que casos de investigação que envolvem figuras associadas ao governo, à oposição, ao Centrão e ao sistema financeiro reforçam a percepção de que as fronteiras entre interesses públicos e privados permanecem excessivamente permeáveis. A perda dessa confiança é o terreno fértil do qual costumam nascer candidatos improváveis.

A história oferece exemplos. Fernando Collor em 1989 e Jair Bolsonaro em 2018 surgiram quando parcelas expressivas da sociedade perderam confiança nos atores tradicionais. Em outros países, ocorreu com Javier Milei na Argentina e Emmanuel Macron na França. O padrão não está nas ideologias ou trajetórias semelhantes, mas no momento de ruptura com o sistema anterior.

O esgotamento das narrativas políticas

Durante anos, a esquerda denunciou corrupção e autoritarismo da direita. A direita denunciou corrupção, aparelhamento do Estado e impunidade da esquerda. Cada lado se apresentava como alternativa moral ao adversário. Esse discurso começou a perder força conforme escândalos, favorecimentos indevidos e relações pouco transparentes atingiram personagens de diferentes espectros políticos.

Para uma parcela crescente da população, a disputa deixou de opor virtuosos e culpados. Passou a parecer um confronto entre grupos igualmente incapazes de entregar a renovação prometida. O desgaste não decorre apenas de escândalos pontuais, mas de problemas estruturais que avançam sem que o sistema político pareça capaz de enfrentá-los com urgência.

Problemas estruturais sem solução visível

O crime organizado amplia presença na economia formal, infiltra-se em cadeias produtivas e controla territórios. Relatórios recentes apontam sua expansão para setores como transporte, combustíveis, construção civil, serviços financeiros e comércio. O problema deixou de ser apenas policial; tornou-se institucional.

Na economia, indicadores importantes permanecem positivos, mas persistem preocupações com crescimento dos gastos públicos, aumento do endividamento e dificuldade de construir trajetória fiscal mais sólida. Para muitos brasileiros, cresce a sensação de que o país administra crises sucessivas sem atacar suas causas mais profundas.

Exaustão política substitui indignação

Em 2018 predominava a indignação — revolta contra corrupção, crise econômica e sistema político. Hoje o ambiente é diferente. Menos marcado pela raiva e mais pela exaustão. Muitos brasileiros já não demonstram disposição para defender incondicionalmente um dos polos políticos, não porque tenham mudado de ideologia, mas porque passaram a enxergar limitações, contradições e fracassos dos dois lados.

É nesse ambiente que candidatos improváveis costumam surgir. O erro mais comum dos analistas é imaginar que o próximo presidente necessariamente estará entre os nomes já conhecidos. A história mostra o contrário: quando sistemas políticos entram em processo de desgaste, novas lideranças encontram espaço para crescer rapidamente.

O fenômeno raramente começa com o candidato. Começa com o esgotamento do ambiente que sustentava os candidatos tradicionais. Não há hoje um nome capaz de ocupar esse espaço de forma evidente. Talvez ele sequer apareça nas pesquisas. A questão não é identificar quem será o próximo candidato improvável, mas saber se as condições para seu surgimento estão novamente se formando.

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.