Médicos na Espanha confundem infecção parasitária com câncer no cérebro
Caso de paciente espanhol mostra como a doença parasitária pode apresentar lesões similares às de tumores e a importância do diagnóstico diferencial.
Por Diário Local
Médicos espanhóis descobriram que lesões no cérebro de um paciente, inicialmente suspeitas de serem metástases de câncer, eram na verdade causadas por uma infecção parasitária. O caso foi descrito por pesquisadores do Hospital de La Plana, em Vila-Real, e publicado em 24 de junho na revista Emerging Infectious Diseases, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).
O paciente, um homem de 60 anos, procurou atendimento em 2025 após apresentar dor de cabeça progressiva durante duas semanas e discretas mudanças de comportamento. Os exames iniciais revelaram múltiplas lesões no cérebro acompanhadas por inchaço, quadro que levou a equipe a suspeitar de câncer metastático.
Os médicos iniciaram tratamento com dexametasona para aliviar o inchaço cerebral, e o paciente apresentou melhora dos sintomas. Em seguida, realizaram uma investigação abrangente para localizar um possível tumor primário, incluindo tomografia computadorizada de corpo inteiro, colonoscopia e PET/CT. Nenhum dos exames encontrou sinais de câncer.
Diagnóstico revelado em ressonância magnética
Uma ressonância magnética revelou dezenas de lesões distribuídas pelos dois hemisférios do cérebro. Algumas apresentavam um pequeno nódulo interno compatível com o escólex, estrutura que corresponde à cabeça da larva da Taenia solium, um parasita conhecido como tênia. A imagem levantou a suspeita de neurocisticercose, doença causada pela infecção por esse verme.
Para confirmar o diagnóstico, os médicos enviaram amostras para o Centro Nacional de Microbiologia do Instituto de Saúde Carlos III, em Madri. O teste identificou anticorpos contra Taenia solium, confirmando a neurocisticercose. O paciente foi tratado com os antiparasitários albendazol e praziquantel, além de dexametasona para controlar a inflamação causada pela morte das larvas.
Segundo os pesquisadores, a evolução clínica foi favorável e não houve complicações durante o tratamento.
Como a infecção pode ter ocorrido
Um dos aspectos incomuns do relato é que o paciente nunca havia viajado para regiões onde a doença é considerada endêmica. Os exames também não encontraram ovos do parasita nas fezes dele nem dos familiares. Ao analisar o histórico do homem, os pesquisadores levantaram a hipótese de que a infecção possa ter ocorrido muitos anos antes, quando ele trabalhava na construção civil e compartilhava refeitórios e banheiros com colegas vindos de países onde a Taenia solium circula com maior frequência. No entanto, os autores ressaltam que essa é apenas uma hipótese, sem confirmação da origem exata da infecção.
Por que o diagnóstico correto importa
Para os pesquisadores, o caso reforça que a neurocisticercose deve ser considerada entre as possíveis causas de múltiplas lesões cerebrais, mesmo em pacientes sem histórico de viagens para áreas endêmicas. Reconhecer características típicas da doença nos exames pode evitar diagnósticos equivocados e permitir o início do tratamento adequado.
Entenda a diferença entre teníase e neurocisticercose
A teníase é uma infecção intestinal causada pela tênia adulta. Ela é adquirida após o consumo de carne de porco ou de boi crua ou malcozida contendo larvas do parasita.
A neurocisticercose é uma doença diferente e mais grave. Ela ocorre quando a pessoa ingere ovos da Taenia solium, presentes em água, alimentos ou mãos contaminadas por fezes humanas de alguém com teníase. Após entrarem no organismo, as larvas podem migrar para o cérebro e formar cistos, provocando sintomas como dor de cabeça, convulsões e alterações neurológicas.
Como se proteger
A prevenção inclui lavar bem as mãos, higienizar frutas e verduras, consumir água tratada, cozinhar adequadamente as carnes e identificar e tratar pessoas com teníase para interromper a transmissão do parasita. Em caso de sintomas neurológicos persistentes, procure avaliação médica para diagnóstico adequado.
