Descoberta de fósseis no Acre revela duas novas espécies de macacos de 11 milhões de anos
Achado na Amazônia brasileira dobra a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na região e traz novos detalhes sobre a evolução do grupo.
Por Redação Diário Local
A descoberta de fósseis de primatas no Acre, na Amazônia brasileira, revelou duas novas espécies de macacos que viveram há cerca de 11 milhões de anos. Os achados, compostos por dentes e um fragmento de osso do tarso, mais do que dobram a diversidade de primatas do período Mioceno conhecida na região.
As novas espécies identificadas são a Migmacebus juruaensis e a Parabrachyteles vesperus. A nomeação dos animais foi possível por meio de fotografia óptica e tomografia computadorizada de alta precisão aplicada aos restos encontrados na formação geológica Solimões Superior.
De acordo com o estudo publicado no Journal of Mammalian Evolution, a espécie Parabrachyteles vesperus teria cerca de 6 quilos e uma dieta baseada em alimentos fibrosos e folhas, similar à dos muriquis atuais. Por outro lado, a Migmacebus juruaensis provavelmente não passava de um quilo e se alimentava de frutas e itens duros, assemelhando-se aos macacos-prego e macacos-de-cheiro.
O que a descoberta revela sobre a evolução?
O pesquisador Laurent Marivaux, da Universidade de Montpellier, na França, afirma que o achado de um parente próximo dos muriquis no Acre reformula a compreensão sobre a história evolutiva do grupo. Segundo o paleontólogo, os ancestrais desses primatas podem ter tido uma distribuição geográfica muito mais ampla do que se acreditava anteriormente.
A professora Annie Hsiou, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, destaca que a diversidade de primatas no Mioceno amazônico era maior do que se imaginava. Para ela, a Migmacebus apresenta uma combinação de características que indica uma diversificação complexa do grupo dos cebíneos.
Como os fósseis foram encontrados?
O trabalho foi idealizado por pesquisadores do Museu de Ciências Naturais (MCN) do Rio Grande do Sul e da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul. A coleta envolveu ainda instituições da França e da Argentina.
A maioria dos pequenos fósseis foi identificada por meio do processo de screenwashing (peneiramento) de sedimentos retirados de barrancas de rios. Enquanto o material mais grosso é triado em campo, os sedimentos finos passam por análise em laboratório sob estereomicroscópios.
A preservação de fósseis em ambientes tropicais densos como a Amazônia é considerada um desafio devido à vegetação e à presença de rios. A curadora da Seção de Paleontologia do MCN, Ana Maria Ribeiro, explica que a quantidade de material preservado costuma ser pequena quando comparada a regiões mais abertas, como a Patagônia.
