Ex-inspetor da Anac denunciou uso irregular de peças em aviões da Voepass antes de acidente
Relatos de um ex-servidor indicam que ele alertou a agência sobre manutenção inadequada e reaproveitamento de componentes antes da queda em Vinhedo
Por Redação Diário Local
Um ex-inspetor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) alertou a agência sobre o suposto reaproveitamento irregular de peças em aeronaves da Voepass antes do acidente ocorrido em Vinhedo (SP). O ex-servidor relatou a identificação de falhas na manutenção e o uso de componentes sem a devida avaliação de segurança de voo.
O profissional, que trabalhou na Anac por 16 anos e foi exonerado em 2025, afirmou que, em 2019, recomendou a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas — companhia que se fundiu à Passaredo e deu origem à Voepass. Na ocasião, ele relatou evidências de que peças eram utilizadas sem avaliação adequada, mas a recomendação não foi acatada pela agência reguladora.
Em 2022, o então inspetor voltou a sinalizar irregularidades. Ele afirmou que peças de uma aeronave que sofreu um acidente em Rondonópolis (MT), em 2016, estariam sendo reaproveitadas de forma indevida. Como não houve providências internas, o servidor encaminhou os relatos a instituições internacionais, como a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) e a Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA).
O que diz a investigação da Polícia Federal?
A Polícia Federal concluiu a investigação do acidente da Voepass na última quinta-feira (6) e indiciou 16 pessoas. Entre os indiciados estão pilotos, funcionários de solo, gerentes, diretores e o presidente da companhia. Eles podem responder por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo e falsidade ideológica.
Segundo o delegado da Polícia Federal em Campinas, André Ribeiro, a investigação identificou uma cultura de omissão dentro da empresa. De acordo com a apuração, a organização priorizava a operação das aeronaves em detrimento da segurança. O relatório aponta ainda que o sistema de degelo da aeronave apresentou falhas pelo menos 15 vezes antes do acidente, mas os problemas não teriam sido registrados no diário técnico.
Caso as falhas tivessem sido registradas, a aeronave não teria condições de decolar, conforme a investigação. O sistema de degelo é fundamental para a segurança do voo em determinadas condições meteorológicas.
Respostas da Anac e da Voepass
A Anac informou que os achados sobre a aeronave acidentada em Rondonópolis foram analisados e que as peças passaram por verificações conforme as normas. A agência também confirmou a abertura de um processo interno para investigar eventuais responsabilidades de servidores públicos.
Em nota, a Voepass afirmou que a segurança é sua prioridade, que os treinamentos seguem os protocolos estabelecidos e que a companhia colabora com as autoridades nas investigações em curso.
