Fóssil de cobra de 80 milhões de anos em SP indica que espécie vivia no subsolo
Estudo publicado na revista Nature revela que a espécie Tametara mirim possuía anatomia compatível com a vida subterrânea.
Por Redação Diário Local
O fóssil de uma cobra de aproximadamente 42 centímetros, que viveu há 80 milhões de anos no interior de São Paulo, fornece novas pistas sobre a evolução das serpentes. A espécie, batizada de Tametara mirim, apresentava características anatômicas compatíveis com a vida subterrânea, segundo estudo publicado na revista Nature.
A pesquisa, que contou com o apoio da Fapesp, utiliza dados de microtomografia computadorizada para reconstruir a estrutura interna do crânio do animal. A análise revelou que os ossos do teto do crânio eram densos e sobrepostos, um padrão comum em animais adaptados para cavar tocas, conhecidos como fossoriais.
Além da estrutura óssea, o ouvido interno da Tametara mirim reforça a hipótese do hábito subterrâneo. O órgão possuía um vestíbulo grande e arredondado, além de canais semicirculares finos, características que sugerem uma percepção de sons de baixa frequência, que viajam com maior eficiência pelo solo do que pelo ar.
O que a anatomia revela sobre o comportamento?
A análise digital permitiu identificar que a região do céreção ligada ao processamento visual, o teto óptico, era pouco desenvolvida na espécie. Essa atrofia indica que a visão não era uma função vital para a sobrevivência da Tametara mirim no seu ambiente de vida.
Os canais semicirculares reduzidos indicam, ainda, que o posicionamento espacial do corpo não era um fator de percepção crucial para o animal, o que é condizente com o modo de vida debaixo da terra. O estudo diferencia a Tametara de outras espécies da mesma época, como a Dinilysia patagonica, da Argentina, que possuía anatomia compatível com a vida terrestre.
Importância da descoberta para a ciência
O achado demonstra que, durante o período Cretáceo, as serpentes já haviam se diversificado ecologicamente, ocupando ambientes marinhos, terrestres e subterrâneos. Isso indica que não houve um único ambiente ancestral comum para todo o grupo, mas uma coexistência de diferentes hábitos desde cedo na história evolutiva.
O fóssil foi descoberto em 2020, em uma pedreira na região de Presidente Prudente, em São Paulo. Segundo os pesquisadores, trata-se do primeiro fóssil de cobra articulado (com os ossos ainda conectados da maneira como estavam no momento da morte) encontrado no Brasil. Registros anteriores de serpentes desse período no país limitavam-se a vértebras isoladas.
A rocha onde o fóssil foi localizado pertence à Formação Adamantina, parte do Grupo Bauru, região famosa pela abundância de fósseis de dinossauros.
