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Opinião

A busca pela identidade para além da utilidade e do papel de servir

Texto reflete sobre como o excesso de presteza e a necessidade de ser útil podem servir como escudo contra o questionamento da própria essência.

Por Davy Albuquerque

A busca pela identidade individual enfrenta o desafio de se desvincular da necessidade de utilidade constante e do desempenho de tarefas para a aceitação alheia. O papel de ser uma pessoa útil funciona como um mecanismo de proteção contra a insegurança da liberdade e contra o questionamento sobre a essência do ser quando não há funções sendo executadas.

A tendência de superar expectativas e antecipar necessidades de terceiros, mesmo sem solicitações, pode criar uma ilusão de imprescindibilidade. Esse comportamento, embora visto como uma forma de presença, muitas vezes mascara uma atuação constante para manter um papel social específico diante do olhar dos outros.

Essa dinâmica de excesso encontra paralelo na filosofia de Jean-Paul Sartre, em sua obra 'O Ser e o Nada'. O filósofo descreve o caso de um garçom que apresenta gestos excessivamente precisos e uma voz solicitante demais, sugerindo que o profissional não apenas trabalha, mas 'brinca de ser garçom', encenando um papel idealizado.

Por que o excesso de zelo pode ser uma encenação?

O zelo exagerado serve como prova de que o indivíduo está interpretando um personagem. Diferente do ajudar genuíno, que admite pausas, ausências e a possibilidade de dizer não, a atuação exige uma reafirmação diária para que o papel não se desmanche perante a sociedade.

Assumir um papel social oferece um tipo de conforto existencial e um 'lugar' seguro. Ao ditar gestos e distribuir tarefas ao longo do dia, a função protege o indivíduo da tarefa mais difícil: encarar a pergunta sobre quem ele é quando nenhuma ocupação define sua existência.

A utilidade acaba servindo como uma resposta pronta para a insegurança de ser livre. Enquanto o indivíduo se mantém focado na resolução de problemas e no serviço, ele evita o confronto direto com a própria identidade e com o vazio que a liberdade pode provocar.

O que muda ao abandonar os papéis sociais?

Renunciar à necessidade de ser amado pelo que se faz, em vez de pelo que se é, impõe um processo de transição desconfortável. Ao abandonar os papéis que oferecem segurança, o indivíduo pode se sentir sem uma 'casa' emocional, enfrentando o surgimento de perguntas que foram evitadas por décadas.

O processo de libertação não resulta necessariamente em respostas imediatas sobre a própria natureza. A liberdade, nesse contexto, parece estar mais relacionada à capacidade de suportar a incerteza e o tamanho das perguntas existenciais do que à descoberta de uma identidade pronta e imutável.

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.