Diário Local
Rio de Janeiro

Laje na Rocinha é anunciada por quase R$ 1 milhão como investimento para construção de quitinetes

Registro mostra estrutura de 420 metros quadrados destinada à construção de várias unidades para aluguel na comunidade.

Por Redação Diário Local

Uma laje em construção na Rocinha, no Rio de Janeiro, está sendo anunciada por quase R$ 1 milhão como um investimento para a criação de quitinetes para aluguel. O registro da negociação expõe a dinâmica de um mercado imobiliário clandestino que opera por meio da construção, revenda e exploração econômica de imóveis em áreas ocupadas irregularmente.

O vídeo do anúncio foi publicado pelo influenciador digital Ruan Juliet, criador de conteúdo sobre o cotidiano da comunidade. Nas imagens, a estrutura de cerca de 420 metros quadrados, distribuída em três pavimentos, é apresentada como um ativo financeiro destinado à geração de renda.

Segundo o criador de conteúdo, o objetivo do comprador seria transformar a laje em diversas unidades habitacionais pequenas. Cada uma dessas quitinetes teria o potencial de gerar aproximadamente R$ 800 mensais em aluguel para o proprietário.

A negociação contempla apenas a estrutura da laje, que ainda se encontra em fase de edificação. O comprador deverá investir nos custos de finalização da obra, como instalações, acabamentos e as divisões internas necessárias para o funcionamento das unidades.

O caso evidencia um fenômeno de verticalização em comunidades, onde o processo de expansão deixa de ser apenas uma busca por moradia para se tornar uma cadeia econômica organizada. Nesse modelo, funcionam figuras que atuam de forma semelhante a incorporadores do mercado formal, mas à margem da legislação urbanística.

Nesta dinâmica, o imóvel é erguido para ser revendido e, posteriormente, explorado comercialmente por meio de locações. No final dessa cadeia, as famílias de menor renda acabam ocupando essas unidades e pagando aluguéis por moradias construídas sem o devido licenciamento municipal.

A naturalidade com que a negociação é tratada no vídeo reflete a percepção de que esse tipo de comércio integra o cotidiano local. O registro mostra que a verticalização e o mercado de imóveis irregulares seguem avançando nas áreas ocupadas.

O cenário de expansão contrasta com as ações de fiscalização anunciadas pela Prefeitura do Rio de Janeiro. A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) informou que já realizou mais de 5.500 demolições de construções ilegais desde 2021.

O município também afirma que implementou barreiras para conter o avanço de ocupações irregulares sobre áreas de proteção ambiental. O objetivo dessas medidas é impedir que novas edificações surjam em zonas ambientalmente sensíveis.

Entre as operações recentes de combate à irregularidade, a Seop destacou a demolição de um prédio de três andares na própria Rocinha, avaliado em cerca de R$ 2 milhões. Houve também intervenções para remover construções no Vidigal e na Favela Praia da Rosa, na Ilha do Governador.

Apesar do esforço de fiscalização e das demolições registradas, novos pontos de verticalização acelerada continuam surgindo na cidade. O crescimento de edificações é observado em diferentes regiões, incluindo áreas da Zona Sul e próximas a importantes acessos urbanos.

O registro na Rocinha levanta questionamentos sobre a eficácia das políticas de controle de expansão urbana. A existência de um mercado que movimenta valores milionários em áreas irregulares coloca em xeque o alcance da fiscalização municipal.

Enquanto as autoridades focam em operações de demolição de estruturas já consolidadas, a comercialização de novas lajes demonstra a continuidade do setor informal. O modelo de negócio baseado na reestruturação de espaços para aluguel segue como uma alternativa econômica nas comunidades.

O impasse entre o discurso oficial de contenção e a realidade das ofertas de investimento em áreas ocupadas permanece como um desafio para a gestão urbana do Rio de Janeiro.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.