Ouro da Venezuela segue bloqueado em banco inglês após disputa judicial
Disputa entre governo venezuelano e Justiça britânica mantém 31 toneladas de metal, avaliadas em US$ 4 bilhões, sob controle de Londres.
Por Redação Diário Local
O governo interino da Venezuela busca recuperar o controle sobre 31 toneladas de barras de ouro depositadas no Banco da Inglaterra, em Londres. O metal, avaliado em cerca de US$ 4 bilhões, está bloqueado por decisão da Justiça britânica desde 2019, quando o Reino Unido deixou de reconhecer Nicolás Maduro como presidente do país.
A disputa pelas reservas ocorre em um momento de transformação política na Venezuela, após a queda de Maduro em janeiro deste ano. O ex-ditador foi capturado por forças especiais dos Estados Unidos e, nesta terça-feira (21), compareceu ao Tribunal Federal do Distrito Sul, em Nova York, para responder a processos por narcoterrorismo e tráfico de drogas.
As barras de ouro foram depositadas no Banco da Inglaterra em 2008 pelo Banco Central da Venezuela (BCV). O bloqueio começou a ser desenhado em janeiro de 2019, quando o Reino Unido, os Estados Unidos e outras nações passaram a reconhecer Juan Guaidó como o presidente legítimo da Venezuela, invalidando as ordens de retirada de ativos emitidas pelo governo de Maduro.
Em 2020, o Tribunal Superior de Londres confirmou a negativa de acesso ao metal, baseando-se no reconhecimento oficial da presidência de Guaidó. Decisões posteriores, em 2021 e 2022, mantiveram o entendimento de que Caracas não possuía autoridade para movimentar as reservas localizadas no território britânico.
Mesmo com o fim da gestão interina de Guaidó em janeiro de 2023, o destino do ouro permaneceu em um impasse jurídico. O país sul-americano possui um total estimado de 61 toneladas de ouro, considerando as reservas mantidas em Caracas e o montante guardado em Londres.
Por que o acesso ao ouro foi negado?
A negativa baseou-se no reconhecimento diplomático de uma liderança oposicionista na época. O Banco da Inglaterra, que atua como banco central do Reino Unido, impediu a retirada do metal para garantir que os ativos fossem geridos conforme a legitimidade política reconhecida pelo governo britânico.
O Banco da Inglaterra possui um dos maiores cofres de ouro do mundo, sendo superado apenas pela Reserva Federal de Nova York. Entre as 400 mil barras armazenadas na instituição inglesa, encontram-se as 31 toneladas pertencentes ao Estado venezuelano.
Qual o objetivo da nova solicitação de liberação?
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, solicitou a liberação dos recursos para financiar a reconstrução do país após os terremotos que atingiram o norte da nação em junho. O desastre natural causou uma crise humanitária sem precedentes, com mais de 5 mil mortos, 16 mil feridos e dezenas de milhares de pessoas deslocadas.
Rodríguez enviou uma carta ao rei Charles III pedindo o apoio para o uso do metal na reconstrução nacional. No entanto, o site oficial da monarquia britânica esclareceu que o monarca, no exercício de sua função constitucional, não intervém em disputas de natureza política ou pessoal.
O governo britânico, por meio da secretária de Relações Exteriores, Yvette Cooper, reiterou que o Banco da Inglaterra deve tomar decisões de forma independente. Cooper afirmou ao Parlamento que os princípios do Reino Unido seguem focados na promoção da estabilidade e da transição para a democracia.
Como está a situação financeira da Venezuela?
Apesar do bloqueio do ouro, a gestão de Delcy Rodríguez obteve um avanço financeiro recente. Na última sexta-feira (17), o Fundo Monetário Internacional (FMI) liberou US$ 346 milhões para auxiliar nos esforços de recuperação após as tragédias naturais.
A liberação do montante foi possível após a retomada de relações diplomáticas com o FMI, que estavam interrompidas desde 2019. Antes do acordo, a Venezuela estava impedida de acessar cerca de US$ 4,5 bilhões em Direitos Especiais de Saque (DES).
A nova administração venezuelana tem adotado uma postura de aproximação com o cenário internacional, incluindo a abertura do setor petrolífero para investimentos americanos e o restabelecimento de canais diplomáticos com Washington, buscando estabilizar a economia interna.
