Negligência e solo frágil podem ter agravado danos de terremotos na Venezuela
Análise de satélite mostra que um terço das estruturas de Catia La Mar foi danificada pelos dois tremores da semana passada; especialistas apontam anos de falta de supervisão e solo instável.
Por Diário Local
Os dois terremotos consecutivos que atingiram a Venezuela na semana passada derrubaram grande parte dos mais de 190 prédios do complexo habitacional Hugo Chávez, colocando seus moradores no centro de uma tragédia. A região de Catia La Mar, no estado de La Guaira, foi a mais impactada pelos tremores.
Uma análise de imagens de satélite realizada pelo laboratório AI for Good da Microsoft determinou que cerca de um terço das quase 30 mil estruturas da cidade foram danificadas. Engenheiros apontam que a magnitude dos danos pode estar ligada a anos de negligência e falhas estruturais nos projetos habitacionais.
Suspeita de negligência e problemas construtivos
Especialistas em engenharia pedem que o governo audite rapidamente os conjuntos habitacionais públicos que permanecem de pé. A suspeita é que anos de negligência, não aplicação dos códigos de construção e práticas precárias de licenciamento possam ter agravado o custo humano dos terremotos.
Grandes rachaduras se espalharam pelos prédios do conjunto habitacional, revelando os materiais de construção internos. Alguns caíram e outros pareciam à beira do colapso. Enrique Larrañaga, arquiteto e urbanista da Universidade Simón Bolívar, criticou a resposta governamental: "É criminoso que o governo não esteja aceitando mais rapidamente ofertas de engenheiros e universidades".
A presidente interina, Delcy Rodriguez, anunciou que estava criando uma comissão para examinar estruturas habitacionais danificadas, mas não informou quando as avaliações começariam. Engenheiros voluntários já oferecem serviços aos cidadãos, com avaliações iniciais sugerindo que, em muitos casos, protocolos foram ignorados.
História de construções aceleradas e sem supervisão
O governo de Hugo Chávez começou a construir conjuntos como o complexo Hugo Chávez pouco antes das eleições de 2012, como parte de um esforço para erguer milhões de unidades baratas em todo o país. Seu sucessor, Nicolás Maduro, deu continuidade ao projeto, ampliando o acesso à moradia para venezuelanos de baixa renda.
Os empreendimentos foram construídos rapidamente por uma combinação de órgãos estatais e empreiteiras de China, Turquia e Belarus sob supervisão militar, mas com pouca transparência pública. À medida que Chávez e Maduro centralizaram o poder, as instituições se enfraqueceram, assim como os controles de qualidade sobre novas construções e a manutenção de estruturas existentes.
A falta de aplicação de códigos mais rigorosos em edifícios públicos sinalizou a construtores privados que poderiam cortar custos. Reportagens e estudos independentes já identificaram diversos edifícios construídos em áreas geologicamente arriscadas, alguns com rachaduras e infiltrações, entre outras deficiências.
Instabilidade do solo e vulnerabilidade sísmca
Os especialistas apontam também para a instabilidade do solo em La Guaira como fator que aumenta os riscos para a construção de imóveis. A mistura de areia solta, cascalho e detritos faz com que as ondas sísmicas se propaguem mais lentamente, mas aumentem de intensidade, amplificando a vibração.
Preso entre as montanhas e o mar, o solo tem o potencial de se tornar ainda mais fluido durante um terremoto, aumentando os riscos da construção. Desde a década de 1970, engenheiros sabem que edifícios de concreto são particularmente suscetíveis a terremotos e buscam reforçar novas construções com aço.
Após um terremoto mortal em 1967, as autoridades venezuelanas atualizaram os códigos de construção, mas não está claro quantos edifícios cumpriram com as novas regras. Enquanto vários países ricos obrigaram proprietários a adaptar ou demolir edifícios perigosos, muitos países de renda baixa ou média demoraram a aplicar essas melhorias.
