Venezuela enfrenta luto, buscas por sobreviventes e tensões políticas uma semana após terremotos
Sete dias após os tremores de magnitudes 7,2 e 7,5, país convive com buscas por desaparecidos, crise humanitária e acusações entre governo e oposição.
Por Diário Local
Uma semana após os terremotos que sacudiram a Venezuela na noite de 24 de junho, o país convive simultaneamente com o luto pelas vítimas, os esforços de resgate nos escombros e tensões políticas entre o governo e a oposição, intensificadas pela crise humanitária.
O governo venezuelano registra ao menos 1.943 mortos e mais de 10 mil feridos nos dois tremores de magnitudes 7,2 e 7,5 — os mais fortes no país desde 1900. Além disso, mais de 15 mil pessoas foram deslocadas de suas casas. O número oficial de desaparecidos não foi divulgado pelas autoridades, mas uma plataforma criada pela sociedade civil para auxiliar nas buscas registra mais de 40 mil casos de pessoas ainda não localizadas desde os abalos sísmicos.
Nas áreas mais afetadas — especialmente no estado de La Guaira e em pontos da capital Caracas — relatos indicam falta de alimentos, interrupção de serviços básicos e ausência de conectividade. O governo estimou que 855 edifícios foram afetados pelos tremores, com 189 colapsando totalmente. Dados preliminares da Nasa apontam que quase 60 mil edifícios podem ter sido prejudicados.
Crise humanitária e falta de abrigo
Levantamentos da Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) mostram que 4 em cada 10 pessoas deslocadas pelos terremotos em La Guaira vivem atualmente nas ruas, em espaços públicos ou em instalações precariamente improvisadas. "Esses abrigos improvisados não atendem aos padrões mínimos de proteção", alertou a porta-voz da Acnur, Carlotta Wolf.
Forças de resgate de cerca de 30 países atuam na Venezuela para localizar sobreviventes. Entre eles estão equipes do Brasil, Vietnã, El Salvador, República Dominicana, Espanha, Cuba, Colômbia, México e Estados Unidos.
Disputa política em meio à tragédia
Apesar da crise humanitária, a tensão política entre o governo — atual sob o domínio de Delcy Rodríguez — e a oposição não arrefeceu. A oposição acusa o governo de tentar politizar a crise e utilizar a distribuição da ajuda humanitária em benefício próprio, denunciando supostos casos de controle do acesso de voluntários às zonas afetadas e burocracias que centralizam toda a distribuição de ajuda nos órgãos estatais ou no Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).
"Circulam amplamente nas redes sociais relatos de agentes da Guarda Nacional e da Polícia Nacional impedindo a sociedade civil de prestar assistência às vítimas e aos afetados", relatou um morador de Caracas que preferiu manter o anonimato por questões de segurança.
O governo de Delcy Rodríguez justifica a centralização da ajuda humanitária como uma medida para impor ordem e facilitar a distribuição de assistência nas zonas mais afetadas pelos tremores.
Por conta da situação, civis e membros da oposição venezuelana enviaram um manifesto para os Estados Unidos, solicitando apoio da administração Donald Trump para que as atuais lideranças sejam substituídas por um governo nacional de emergência. O documento foi assinado por 15 organizações e 94 pessoas.
A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, acusou o governo de impedir seu retorno ao país após o fechamento do espaço aéreo. Na segunda-feira (29 de junho), ela afirmou que se deslocaria do Panamá rumo ao território venezuelano, mas teve seu retorno bloqueado. No início da semana, autoridades restringiram o espaço aéreo para voos comerciais até 7 de julho, priorizando a rota aérea para aviões com ajuda humanitária ou envolvidos em resgates.
