Florestas jovens em Juiz de Fora contribuem para risco de deslizamentos em chuvas intensas
Mais de 80% da cobertura vegetal do município tem menos de 30 anos e possui menor capacidade de ancoragem do solo, segundo pesquisador.
Por Redação Diário Local
Mais de 80% das florestas do município de Juiz de Fora possuem menos de 30 anos de idade, característica que contribui para a vulnerabilidade da cidade diante de chuvas intensas. A predominância de vegetação jovem dificulta a estabilização do solo e a infiltração de água, fatores que ajudam a prevenir deslizamentos.
Segundo dados do MapBiomas, a maior parte da cobertura florestal da região é composta por matas em processo de regeneração. O pesquisador Fabrício Alvim, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que essas áreas ainda não recuperaram plenamente funções ecológicas fundamentais para a resiliência do terreno.
Embora áreas abertas sejam rapidamente ocupadas por espécies pioneiras para "cicatrizar o ambiente", o amadurecimento completo de uma floresta pode levar séculos. Monitoramentos realizados no Jardim Botânico da UFJF indicam que mesmo florestas com mais de 80 anos de regeneração natural ainda se comportam como florestas secundárias iniciais devido ao histórico de uso agrícola do solo.
Por que a vegetação jovem influencia os deslizamentos?
As árvores auxiliam na contenção de encostas por meio de raízes que mantêm o solo firme e copas que reduzem o impacto direto da chuva na superfície. No entanto, em florestas jovens, o sistema de raízes é menos profundo e menos extenso do que em matas maduras.
Além disso, a vegetação recente apresenta menor quantidade de matéria orgânica e de serrapilheira (camada de folhas e matéria orgânica sobre o solo), o que diminui a capacidade de ancoragem e de retenção da água. Esse cenário torna as encostas mais suscetíveis à erosão durante eventos de precipitação extrema.
Vistorias realizadas após as chuvas de fevereiro também identificaram que a queda de espécies de ciclo de vida curto e raízes superficiais, como bananeiras, pode favorecer o desbarrancamento em áreas íngremes devido ao peso da planta sobre o solo instável.
Histórico de desmatamento e ocupação
A configuração atual da cobertura vegetal em Juiz de Fora é reflexo de um processo histórico de exploração do solo. A expansão da cafeicultura reduziu a mata nativa a cerca de 5% do território municipal no passado.
Após a crise econômica de 1929 e o consequente abandono de áreas de cultivo, parte dessas terras iniciou um processo de regeneração natural. Hoje, a vegetação ocupa aproximadamente 27% do município, segundo o MapBiomas, mas o processo de recuperação das funções ecológicas ainda está em curso.
O pesquisador ressalta que grande parte das áreas atingidas por desmoronamentos já possuía histórico de ocupação irregular ou riscos preexistentes, como redes de drenagem e esgoto inadequadas. Para proteger o amadurecimento dessas novas florestas, ele defende a conservação das áreas remanescentes e a proteção contra incêndios.
Propostas para resiliência climática
Para enfrentar os efeitos de eventos climáticos extremos, como o Super El Niño previsto, Fabrício Alvim defende a integração entre conservação ambiental, planejamento urbano e obras de engenharia.
Entre as medidas propostas está a criação de um Comitê de Crise Climática, composto por especialistas de diversas áreas. O pesquisador também reforça a necessidade de implementar as ações do Plano Municipal da Mata Atlântica, que foi homologado pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) em 2025.
