Estudo aponta milhares de resultados atípicos no Provão Paulista e levanta suspeita de fraude sistêmica
Relatório da Rede Escola Pública e Universidade indica concentração de desempenhos extraordinários em escolas e regiões de São Paulo.
Por Redação Diário Local
Um estudo realizado pela Rede Escola Pública e Universidade (REPU) apontou a ocorrência de possíveis fraudes de natureza sistêmica nas edições do Provão Paulista realizadas em 2024 e 2025. A análise identificou milhares de desempenhos considerados estatisticamente atípicos entre estudantes da rede estadual de São Paulo, com forte concentração em escolas e regiões específicas do estado.
A pesquisa utilizou microdados das edições de 2023, 2024 e 2025, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, cruzando o desempenho escolar com dados de bonificações pagas a profissionais da rede e listas de convocados para o ensino superior.
Em nota, a Secretaria da Educação de São Paulo afirmou que os dados apresentados no relatório não permitem sustentar a conclusão de fraude sistêmica no exame, nem de comprometimento do processo seletivo. A pasta declarou que associar resultados atípicos à fraude sem evidências individualizadas é uma "correlação temerária".
Como foram identificados os resultados atípicos?
Os pesquisadores classificaram como atípicas as variações de desempenho que são consideradas extremamente improváveis de ocorrer de um ano para o outro entre os mesmos estudantes. O foco da análise foi a comparação da evolução das notas ao longo das diferentes edições do vestibular seriado.
Segundo o relatório, entre os alunos do 3º ano do Ensino Médio que fizeram o exame em 2025, foram detectados 4.305 desempenhos extraordinariamente elevados quando comparados aos de 2023. Esse volume é 12,7 vezes maior do que o esperado estatisticamente pela equipe de pesquisa.
A proporção de casos anômalos também apresentou crescimento: saltou de 0,49% dos estudantes em 2024 para 1,91% em 2025. Em contraste, nas Escolas Técnicas Estaduais (ETECs), apenas 0,17% dos alunos apresentaram resultados atípicos em 2025, índice considerado normal pelos autores.
Onde estão concentradas as anomalias?
A concentração dos resultados em poucas unidades é um dos pontos centrais que sustentam a hipótese de fraude sistêmica levantada pela REPU. Metade dos 4.305 desempenhos atípicos de 2025 ocorreu em apenas 50 escolas estaduais, o que representa 1,4% das unidades participantes.
Em 44 dessas escolas, mais de 40% dos alunos apresentaram resultados fora do padrão, chegando a ultrapassar 90% em algumas unidades. O fenômeno também foi observado em nível regional: metade dos casos atípicos de 2025 ficou restrita a apenas 8 das 91 Unidades Regionais de Ensino (UREs) de São Paulo.
Os pesquisadores reforçaram que os padrões observados nas escolas estaduais não foram replicados nas escolas municipais nem nas ETECs. Para os autores, a redução anormal da dispersão das notas afasta explicações baseadas apenas em flutuações estatísticas individuais.
Qual o impacto nas vagas de universidades?
O relatório aponta uma associação entre a proporção de desempenhos atípicos e a quantidade de estudantes convocados para o primeiro semestre de 2026. Dos 14.271 alunos da rede estadual convocados via Provão Paulista, 1.608 (11,3%) estudavam em unidades onde mais de 20% dos resultados foram classificados como atípicos.
Em nove escolas consideradas especialmente discrepantes — com mais de 75% de resultados atípicos e de convocados — 90% dos alunos apresentaram desempenho anômalo e 85% conseguiram vaga em instituições públicas de ensino superior, como USP, Unicamp, Unesp e Fatecs.
A REPU ressalva que os dados não permitem identificar candidatos específicos ou determinar quantas vagas foram ocupadas por condições irregulares, mas conclui que as anomalias impactaram a igualdade de condições no processo seletivo.
Possíveis causas apontadas pelo estudo
Os pesquisadores relacionam o problema às regras do próprio Provão Paulista, que acumula funções de processo seletivo, avaliação de escolas e base para distribuição de bonificações a profissionais da rede. Segundo a nota, o sistema de recompensas pode ter criado incentivos para a inflação de resultados.
O estudo observou que o número de escolas beneficiadas com bonificações cresceu: de 559 unidades com selos "Ouro" ou "Diamante" em 2024, o número saltou para 2.839 escolas com bonificação "Ouro" em 2025. A análise também menciona a "plataformização" da rede, que ampliou o uso de ferramentas digitais no ambiente escolar.
