Pais e especialistas cobram políticas de cuidado contínuo para jovens e adultos com autismo
Em seminário na Câmara, participantes reivindicaram suporte público ao longo da vida, apontando que atendimento cessa na adolescência.
Por Diário Local
Pais e especialistas reivindicaram em seminário na Câmara dos Deputados políticas públicas de suporte contínuo para pessoas com autismo ao longo de toda a vida. O debate, organizado pela Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, evidenciou que o atendimento oferecido pelos órgãos públicos é interrompido quando a pessoa chega à adolescência.
Dulcelene Cidreira, mãe de pessoa autista com elevada necessidade de apoio, relatou a realidade enfrentada pelas famílias. "O meu filho tem 14 anos. Diante da sociedade, ele é um homem, mas é um homem com uma mentalidade de criança. Hoje a sociedade não vê mais as crises dele como birra, mas sim como uma ameaça", afirmou. Ela pediu urgência em políticas para adolescentes autistas e continuidade de atendimento em centros de assistência que, segundo ela, interrompem o suporte quando a criança completa 12 anos.
Flavia Poppe, criadora da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, explicou que a instituição foi criada justamente para preencher a lacuna deixada pelo Estado. "O instituto nasceu da angústia de, quando termina a fase escolar, nós não vermos nada. No momento em que, na vida de um jovem, o horizonte se expande e a gente pensa no futuro, para um jovem autista a porta se fecha", afirmou, alertando para a necessidade de rever políticas e dar continuidade ao suporte.
Falta de moradias adequadas
Uma das principais lacunas identificadas no seminário é a falta de moradias adequadas para pessoas neurodivergentes viverem com autonomia. De acordo com Flavia Poppe, o Sistema Único de Assistência Social conta com 275 residências, cada uma com capacidade para abrigar dez pessoas, totalizando 2.750 vagas. Esse número é insuficiente diante da demanda: o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de 2022, apontou que o país tem 2,8 milhões de pessoas com transtornos mentais.
Dificuldades no diagnóstico
Os participantes também apontaram problemas no acesso ao diagnóstico. Flavia Poppe destacou que a avaliação biopsicossocial – a forma prevista em lei para diagnosticar deficiência – permanece como "uma enorme dívida" do governo. Sem diagnóstico, a pessoa não consegue acesso a nenhum tipo de atendimento.
A advogada especialista em direito à saúde Juliana Rodrigues reclamou que a Justiça do Distrito Federal aceita somente laudos fornecidos por médicos do sistema público. Porém, a fila para conseguir consulta com um neuropediatra pode ultrapassar dois anos, tornando o acesso ainda mais difícil.
Compromisso com grupo de trabalho
O deputado Rodrigo Rollemberg, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, se comprometeu a sugerir ao governo a criação de um grupo de trabalho para estudar e propor políticas públicas para adolescentes e jovens com autismo. Ele também afirmou que acompanhará a implementação de políticas voltadas às pessoas com deficiência, incluindo o programa Viver sem Limites e as diretrizes do Ministério da Saúde.
