Sérgio Abranches relaciona racismo e autoritarismo à herança da mentalidade da casa-grande no Brasil
Em novo livro, sociólogo e cientista político examina como a herança da mentalidade da casa-grande naturaliza desigualdades no país
Por Redação Diário Local
O cientista político e sociólogo Sérgio Abranches associa o racismo, o patriarcado e o autoritarismo à persistência da mentalidade da "casa-grande" no Brasil. Em seu novo livro, "A terceira margem do Ipiranga: povo, democracia e futuro", o autor analisa como essa herança histórica naturaliza hierarquias e mantém grupos como negros, mulheres e indígenas afastados das posições de poder.
A obra discute as raízes dos impasses democráticos no país e aponta que a estrutura social herdada do período colonial ainda molda comportamentos e instituições. Segundo Abranches, a mentalidade da casa-grande sobrevive como um modelo de pensamento que reage aos avanços de inclusão social.
Como funciona a mentalidade da casa-grande?
Para o sociólogo, a "casa-grande" foi muito mais do que uma residência de senhores de escravizados; ela representou uma ordem social escravocrata que subordinava a política, a Justiça, a polícia e a Igreja. Essa estrutura instituiu um regime patriarcal e autoritário que se reflete até hoje na sociedade.
Essa herança condiciona comportamentos cotidianos e cria enquadramentos que naturalizam a desigualdade. Abranches cita exemplos como a presença de negros em posições subalternas e a ausência de mulheres em cargos de comando, processos que reforçam a ideia de que certos grupos pertencem à "terceira margem" da sociedade.
O autor observa que as pulsões autoritárias tendem a crescer sempre que os grupos marginalizados reivindicam direitos ou protestam contra o domínio estabelecido.
Quais os riscos da era digital?
O livro também aborda as transformações tecnológicas, como a revolução digital e a inteligência artificial. Abranches argumenta que a mediação algorítmica pode ampliar processos de exclusão e alimentar frustrações sociais, o que poderia fortalecer movimentos de extrema direita adaptados às plataformas digitais.
Esse cenário contribui para o que ele chama de formação de uma "geração do ressentimento", trazendo novos desafios para a estabilidade das democracias globais frente à metamorfose socioestrutural em curso.
Qual a proposta para o futuro do Brasil?
Como saída para os impasses nacionais, o sociólogo defende a inclusão da "terceira margem" — o grupo de pessoas que tem sido excluído do usufruto integral dos direitos democráticos. Para ele, essa parcela da população representa um estoque de criatividade e novas perspectivas que ainda não foram incorporados à nação.
Abranches aponta que o Brasil tem a oportunidade de superar etapas de atraso por meio de uma economia digital de carbono zero e do aproveitamento do potencial de bioeconomia em regiões como a Amazônia, o Cerrado e a Caatinga.
