Pesquisa da USP identifica alvo para novos tratamentos contra doença de Chagas
Estudo de pesquisadores da USP mostra que reduzir uma proteína do parasita interrompe o ciclo de infecção em testes de laboratório.
Por Redação Diário Local
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram um alvo promissor para o desenvolvimento de novos tratamentos contra a doença de Chagas. Em testes de laboratório, o grupo conseguiu interromper o ciclo de infecção do parasita Trypanosoma cruzi ao reduzir a produção de uma proteína essencial chamada IP6K.
Sem a molécula em níveis adequados, o patógeno perde a capacidade de se diferenciar em sua forma infectante dentro de células cardíacas humanas, o que compromete gravemente seu desenvolvimento. A descoberta foi detalhada em artigo publicado na revista Communications Biology.
Como a descoberta pode ajudar no tratamento?
Durante os testes, os cientistas desenvolveram uma versão do parasita deficiente para a proteína IP6K. Embora o parasita consiga entrar na célula e se replicar com dificuldade, sua diferenciação em formas infectantes é prejudicada, reduzindo as formas sanguíneas a cada novo ciclo de infecção intracelular.
Um fator importante para a segurança de um possível fármaco é que a IP6K possui uma similaridade de apenas 25% com a versão humana (homóloga). Essa baixa semelhança indica que um tratamento focado nessa proteína pode causar menos efeitos colaterais no organismo do paciente.
O pesquisador Marcelo Santos da Silva ressaltou que, caso seja desenvolvido um fármaco que atue especificamente nessa proteína, há chances de um tratamento eficaz. No entanto, ele destaca a necessidade de novos estudos para entender melhor o papel da IP6K e identificar sítios específicos da proteína para o uso como alvo farmacológico.
O ciclo da doença e o impacto no coração
O Trypanosoma cruzi possui um ciclo de vida complexo que envolve hospedeiros invertebrados, como o barbeiro, e vertebrados, como humanos e animais. O parasita contamina humanos por meio das fezes e urina do inseto, que entram em contato com feridas na pele.
Uma vez na corrente sanguínea, o parasita infecta células e inicia a transição para a forma amastigota, multiplicando-se até se tornar a forma tripomastigota sanguínea. Esta última circula pelo corpo e pode infectar novas células ou ser ingerida por outro barbeiro.
O parasita tem afinidade por células cardíacas, o que pode levar à destruição dessas células e gerar uma resposta inflamatória. Com o tempo, isso causa a perda de função do músculo cardíaco, reduzindo sua capacidade de bombear sangue, característica da fase crônica da doença.
Desafios do tratamento atual
A doença de Chagas é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença tropical negligenciada. Isso ocorre devido ao baixo interesse da indústria farmacêutica e ao fato de atingir majoritariamente populações de baixa renda.
Atualmente, existem apenas dois medicamentos disponíveis para o tratamento, ambos descobertos nos anos 1970. Os remédios são limitados por serem eficazes apenas no início da doença e por causarem efeitos colaterais que, em muitos casos, provocam o abandono do tratamento pelos pacientes.
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou cerca de 400 casos de doença de Chagas em 2025. A OMS estima que a enfermidade afete 8 milhões de pessoas no mundo, com a maioria dos casos concentrada na América Latina.
