Cérebro consegue realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo após treino, diz estudo
Pesquisa publicada no Journal of Cognitive Neuroscience mostra que o cérebro reorganiza circuitos para automatizar atividades após prática constante
Por Diário Local
O cérebro humano consegue realizar múltiplas tarefas simultaneamente após um período de prática e experiência, segundo um estudo publicado no Journal of Cognitive Neuroscience. A descoberta desafia a ideia anterior de que o chamado 'multitarefa' seria apenas uma alternância rápida entre diferentes atividades.
Durante anos, a comunidade científica defendeu que o órgão não conseguia processar dois processos ao mesmo tempo. A crença predominante era de que o cérebro apenas pulava de uma tarefa para outra em alta velocidade.
No entanto, a nova pesquisa sugere que o cérebro é capaz de reorganizar seus próprios circuitos para permitir a execução simultânea. Isso ocorre por meio da automação de certas atividades, que passam a exigir menos esforço consciente.
O estudo foi realizado com um grupo de 11 participantes, entre homens e mulheres com idades entre 18 e 29 anos. Eles realizaram uma tarefa de classificação de imagens de carros geradas por computador por meio de um aplicativo de celular.
O processo de treinamento foi intenso e durou entre cinco e dez semanas. Ao todo, os participantes praticaram a tarefa de classificação mais de 30 mil vezes para que os pesquisadores pudessem analisar as mudanças cerebrais.
Como ocorre a mudança no cérebro
De acordo com o estudo, o processo de automação acontece quando o cérebro transfere o controle de uma atividade de uma região para outra. Inicialmente, tarefas complexas ativam o córtex pré-frontal.
O córtex pré-frontal é a área de controle responsável pelo pensamento de alto nível e pela tomada de decisões. Por ser uma região de foco intenso, ela só consegue se concentrar em uma coisa por vez.
Após o período de prática, os exames mostraram que outra região do cérebro passou a participar do processo: o córtex temporal. Esta área está diretamente ligada à memória e ao reconhecimento de objetos.
Essa migração de funções explica por que conseguimos desenvolver habilidades complexas com o tempo. O fenômeno é semelhante ao processo de aprender a tocar solos de violão ou realizar jogadas complexas em uma quadra de esportes.
Maximilian Riesenhuber, professor de neurociência da Georgetown University School of Medicine e coautor da pesquisa, observou o impacto da prática. Ele afirmou que, após o treinamento inicial, os participantes já apresentavam bom desempenho.
Os participantes alcançaram cerca de 90% de precisão na classificação das imagens. Com a continuidade da repetição, a velocidade de execução aumentou até atingir um ponto de estabilidade na tarefa automatizada.
A importância da repetição
Apesar da possibilidade de multitarefa, os cientistas alertam que essa automação não acontece de forma instantânea ou sem custo cognitivo. Patrick Cox, professor de psicologia da Lehigh University e coautor do estudo, ressaltou que o processo exige muita repetição.
Cox explicou que o cérebro é plástico e flexível. Segundo o pesquisador, ao dedicar tempo suficiente para o treino, o sistema nervoso consegue transformar atividades difíceis e exaustivas em tarefas mais fáceis que demandam menos atenção.
