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Tecnologia

Uso de inteligência artificial para recriar mortos gera debate sobre limites e luto

Prática conhecida como 'necromancia digital' utiliza vozes e imagens de falecidos, levantando questões sobre privacidade e manipulação da memória.

Por Davy Albuquerque

O uso de inteligência artificial para recriar a imagem, a voz e a personalidade de pessoas falecidas tem gerado intensos debates sobre os limites da tecnologia e o impacto no processo de luto. O fenômeno, apelidado de 'necromancia digital', utiliza ferramentas de IA para manipular restos digitais — como mensagens, áudios e vídeos — transformando-os em avatares ou conteúdos simulados.

A facilidade de acesso a tecnologias de inteligência artificial permitiu que a criação de chamados 'grief bots', ou robôs de luto, se tornasse comum. Através de plataformas de processamento de linguagem e imagem, é possível reconstruir personalidades, o que levanta preocupações sobre a distorção da memória de quem morreu e a transformação do luto em um produto comercial.

Como funciona a 'necromancia digital'?

A prática consiste em utilizar dados deixados por pessoas em vida para alimentar algoritmos que geram novos conteúdos. Esse processo permite que avatares digitais interajam com familiares ou apareçam em campanhas, mas sem a possibilidade de defesa ou controle por parte do falecido.

Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath, no Reino Unido, explica que o uso dessas ferramentas pode criar 'fantoches digitais'. Segundo a especialista, qualquer pessoa pode utilizar esses dados para manipular a imagem de mortos, o que torna a proteção da privacidade um desafio crescente, especialmente diante da influência de grandes empresas de tecnologia.

A professora defende que a regulamentação atual não avança na velocidade necessária para evitar usos inadequados, sugerindo a criação de um modelo de direitos da personalidade que se estenda para além da morte física.

Exemplos de uso e controvérsias

A recriação digital já é utilizada em Hollywood para concluir cenas de filmes, como ocorreu nos casos das franquias 'Velozes e Furiosos' e 'Star Wars'. No Brasil, um dos episódios de maior repercussão envolveu uma campanha publicitária que utilizou tecnologia de deepfake para simular um dueto entre a cantora Elis Regina e sua filha, Maria Rita.

O caso da montadora Volkswagen gerou reações divididas e levou o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) a abrir uma investigação para apurar possíveis violações do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. Na esfera legislativa, houve tentativas de estabelecer diretrizes para o uso de imagens de falecidos, mas os projetos foram arquivados.

Além de publicidade, o setor de 'grief tech' (tecnologia do luto) tem oferecido serviços de clones digitais para que parentes possam interagir com versões virtuais de pessoas queridas. No entanto, especialistas ressaltam que o efeito dessas inovações é imprevisível: o que pode parecer útil para um familiar pode ser traumático para outro.

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.