Resíduos de vinho podem ser usados para produzir flores comestíveis, diz estudo
Pesquisadores da Unicamp e da UFPR descobriram que o uso de biofertilizante feito de bagaço de uva favorece o cultivo da calêndula.
Por Redação Diário Local
O bagaço resultante da produção de vinho pode ser transformado em biofertilizante para favorecer o cultivo de flores comestíveis. A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em estudo que avaliou o potencial agrícola do resíduo.
A pesquisa, publicada na revista científica ACS Omega, focou no cultivo da calêndula, uma flor de interesse para as indústrias de alimentos e cosméticos. O material utilizado, chamado de digestato, é obtido por meio da decomposição do bagaço por digestão anaeróbia, processo realizado por microrganismos na ausência de oxigênio.
O bagaço da uva é um resíduo expressivo, correspondendo a cerca de 20% a 25% da massa da fruta processada, com uma produção mundial estimada entre nove milhões e 13 milhões de toneladas por ano.
Como o biofertilizante afeta o cultivo?
Durante os testes, realizados em estufa nas estações de verão e inverno de 2023, a equipe aplicou diferentes concentrações de digestato (de 0% a 30%) combinadas a níveis variados de irrigação. Segundo os pesquisadores, concentrações entre 20% e 30%, quando acompanhadas de água adequada, apresentaram os melhores resultados para o crescimento das plantas.
O uso excessivo do composto, no entanto, pode ser prejudicial. A aplicação em quantidades exageradas comprometeu a biomassa e o número de flores produzidas. O equilíbrio entre a dose de digestato e a disponibilidade de água é essencial para o desenvolvimento das calêndulas.
Impacto na composição das flores
Além de estimular o crescimento, o uso do biofertilizante alterou a composição bioquímica das flores. O estudo registrou um aumento de proteínas, lipídios, açúcares solúveis, carotenoides e compostos fenólicos.
Um dos destaques foi o incremento de betacaroteno. No período do verão, a concentração desse componente chegou a 80,97 miligramas por 100 gramas de flor liofilizada, o que representa um aumento superior a 250% em relação ao cultivo realizado sem o uso do digestato.
A estação do ano também influenciou os resultados: o verão favoreceu a produção de açúcares e carotenoides, enquanto o inverno promoveu maior estabilidade nos pigmentos das plantas. As análises laboratoriais não detectaram a presença de substâncias como arsênio, chumbo, mercúrio ou selênio no material testado.
Próximos passos da pesquisa
Apesar dos resultados promissores, a aplicação desse modelo em larga escala ainda depende de novas etapas de avaliação. Os cientistas apontam que será necessário estudar a viabilidade técnica e econômica, incluindo custos e a logística para integrar o processo às vinícolas ou empresas que já utilizam a digestão anaeróbia.
A equipe também planeja investigar o aproveitamento de outros componentes do bagaço, como antioxidantes e pigmentos naturais, que possuem potencial para a fabricação de novos produtos nos setores de alimentos e cosméticos.
