Embrapa e Sabesp transformam lodo de tratamento de água em fertilizante de liberação lenta
Tecnologia desenvolvida em parceria com a Sabesp utiliza nanotecnologia para converter resíduo em insumo com nutrientes como nitrogênio e potássio
Por Redação Diário Local
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), desenvolveu uma tecnologia que transforma o lodo gerado em estações de tratamento de água em fertilizante de liberação lenta. O processo utiliza nanotecnologia para neutralizar o alumínio potencialmente tóxico do resíduo e incorporar nutrientes como nitrogênio e potássio.
A inovação busca reduzir o impacto ambiental do descarte e melhorar o aproveitamento dos nutrientes pelas plantas, diminuindo as perdas durante a adubação. Os resultados obtidos em laboratório e em casa de vegetação foram positivos, e a próxima etapa consiste na busca por parceiros empresariais para um projeto-piloto industrial.
Como o lodo é transformado em fertilizante?
O lodo produzido nas estações de tratamento de água apresenta baixa quantidade de matéria orgânica e alta concentração de sais de alumínio, o que dificulta seu uso agrícola direto. O alumínio em certas formas pode prejudicar o desenvolvimento das raízes e a absorção de nutrientes, como o fósforo.
Para contornar o problema, os pesquisadores aplicaram um processo hidrotérmico sob condições controladas de temperatura e pressão. O tratamento reorganiza os componentes do material e forma cristais de sodalita, um mineral capaz de reter o alumínio em sua estrutura e reduzir sua liberação no ambiente.
O material resultante é combinado com outras substâncias para criar grânulos enriquecidos. Essa formulação permite que os nutrientes sejam liberados gradualmente no solo, aumentando o tempo de disponibilidade para as plantas e ajudando a reter o nitrogênio, evitando a emissão de gases.
Testes mostram ganhos na produção vegetal
Experimentos realizados na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), avaliaram o desempenho do novo insumo em cultivos de azevém e capim-piatã. Os pesquisadores observaram melhorias na absorção de nutrientes e na produção de biomassa vegetal.
No cultivo de azevém, os tratamentos com a sodalita granulada apresentaram eficiência agronômica de duas a três vezes superior à do grupo de controle. Resultados semelhantes foram identificados no capim-piatã. Além disso, os testes investigaram o uso dos grânulos para transportar bactérias benéficas, como a Bacillus megaterium, que permaneceu viável nos grânulos por quase cinco meses.
Impacto no setor de saneamento
O reaproveitamento do resíduo também pode reduzir custos de destinação para empresas de saneamento. A Sabesp gera aproximadamente 124 mil toneladas de lodo desidratado por ano em suas 208 estações de tratamento de água no estado de São Paulo. O custo médio de transporte e destinação é estimado em R$ 300 por tonelada.
O projeto teve duração de quatro anos, contou com investimentos superiores a R$ 2,7 milhões e teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A continuidade da tecnologia depende da avaliação de viabilidade técnica, econômica e dos procedimentos regulatórios junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
