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Segurança

Registros oficiais de segurança classificam autores de estupro de vulnerável como companheiros de vítimas

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que estados classificam crimes contra menores como relações conjugais ou motivadas por paixão.

Por Redação Diário Local

Minas Gerais e outros 11 estados brasileiros utilizam termos em registros oficiais que classificam autores de estupro de vulnerável como companheiros ou ex-companheiros de vítimas de até 14 anos. O levantamento, baseado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, aponta que crimes contra crianças e adolescentes aparecem com rótulos que sugerem uma relação conjugal, apesar de a lei não permitir tal vínculo.

O Anuário, divulgado nesta quinta-feira (23), revela que os dados referem-se ao ano de 2025. Além do uso de termos que indicam união, o documento expõe uma falha no enquadramento jurídico em grande parte do país.

Com exceção de Minas Gerais, Distrito Federal e Rondônia, todos os demais estados brasileiros registraram casos de violência sexual contra menores de 14 anos como 'estupro' (Artigo 213 do Código Penal), em vez de 'estupro de vulnerável' (Artigo 217-A), que é a tipificação específica para essa faixa etária.

Os estados que apresentam essa inconsistência no enquadramento são Amapá, Distrito Federal, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Paraná, Rio de Janeiro, Sergipe, São Paulo e Tocantins.

O caso de Minas Gerais

Em Minas Gerais, dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que, entre janeiro de 2022 e junho de 2026, o estado registrou 940 casos consumados de estupro de vulnerável classificados com a motivação 'passional'. Quando contabilizadas as tentativas, o número de ocorrências sobe para 965.

No município de Juiz de Fora, 16 casos receberam a classificação de motivação 'passional' no mesmo período, sendo que em 13 deles o crime ocorreu dentro da residência. No primeiro semestre de 2026, a cidade registrou 40 casos de estupro de vulnerável.

A Sejusp informou que o vínculo entre o autor e a vítima, seja como companheiro ou ex-companheiro, não altera a natureza do crime nem descaracteriza a vulnerabilidade da vítima. A pasta esclareceu que o campo de motivação é preenchido de forma preliminar com base em relatos iniciais e pode ser alterado durante a investigação.

A Secretaria destaca ainda que promove políticas de prevenção, assistência e proteção às vítimas de forma integrada entre diversos órgãos estaduais.

Críticas da Justiça

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) alerta que o uso de categorias como 'marido' ou 'companheiro' em registros oficiais pode naturalizar o abuso. O promotor de Justiça Felipe Linzmaier Felix Palma afirma que a prática reproduz uma validação institucional de uniões infantis, que são crimes hediondos.

Para o promotor, rotular a motivação como 'passional' acaba por 'adultizar' a criança ou o adolescente, romantizando uma grave violação de direitos e uma assimetria de poder. No âmbito civil, o promotor lembra que o casamento de menores de 16 anos é proibido em qualquer circunstância.

A advogada Leidiane Salvador ressalta que a presença do termo 'marido' em casos envolvendo menores de 14 anos é preocupante, pois trata de vínculos que não podem ser formalizados legalmente. Ela aponta que a situação pode indicar negligência dos responsáveis por essas crianças.

Na esfera criminal, a lei estabelece que o consentimento é irrelevante para menores de 14 anos. Qualquer ato sexual nessa faixa etária é configurado como estupro de vulnerável, independentemente de laços afetivos ou relacionamentos alegados.

Necessidade de mudanças

O enfrentamento ao problema exige ações multidisciplinares, segundo o MPMG. O promotor Felipe Palma defende a capacitação contínua de agentes de segurança para que o registro policial seja estritamente técnico e não seja influenciado por costumes locais.

Além da qualificação policial, o fortalecimento da rede de proteção — que inclui escolas, unidades de saúde, Conselhos Tutelares e Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas) — é considerado essencial para identificar a violência precocemente.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.