Passageiros usam deslocamento em metrô de São Paulo como principal momento para leitura
Para muitos usuários, o tempo no transporte público é o único intervalo do dia dedicado aos livros, apesar da queda de leitores no país.
Por Redação Diário Local
Passageiros do metrô de São Paulo têm transformado os trajetos diários em momentos dedicados à leitura, utilizando o tempo de deslocamento como um dos poucos intervalos disponíveis na rotina. O hábito é observado em diversas linhas da capital paulista, com passageiros lendo desde romances e suspenses até biografias, mangás e livros de educação financeira.
Para muitos usuários, o transporte público é a oportunidade de manter o contato com os livros diante de jornadas de trabalho intensas ou responsabilidades familiares. É o caso da enfermeira Tamires Moraes, de 38 anos, que realiza diariamente o trajeto entre as estações Saúde, na Zona Sul, e Trianon-Masp, no centro de São Paulo.
Com cerca de 40 minutos de viagem por dia, Tamires utiliza esse período para ler obras como "Ecos da Floresta", da escritora Liz Moore. A profissional relata que, devido à rotina com uma bebê em casa, o tempo no metrô é o principal recurso que consegue dedicar aos livros.
Outro exemplo é o assessor de TI Eduardo Yudi Arata, de 29 anos, que utiliza a leitura como um estímulo pessoal. Durante o trajeto na Linha 2-Verde, ele lê a autobiografia de David Goggins, livro que o auxilia em momentos de motivação antes de atividades físicas.
O movimento nos vagões ocorre em um momento de contraste com os dados nacionais. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, os não leitores passaram a ser maioria no país, com mais da metade da população não ter lido nenhum livro no período do levantamento.
Apesar do cenário geral, o consumo de literatura apresenta crescimento entre o público jovem de 18 a 34 anos, conforme aponta a Câmara Brasileira do Livro. Esse movimento é impulsionado por comunidades digitais, como o BookTok, uma comunidade de leitores na rede social TikTok.
O impacto das redes sociais na leitura
As redes sociais têm desempenhado um papel fundamental na formação de novos leitores, especialmente após o período da pandemia. A escritora e doutoranda em literatura Bruna Paiva observa que o ambiente digital estimula o interesse por novos autores e eventos literários.
O jovem aprendiz Kauã Sousa, de 18 anos, é um dos reflexos dessa tendência. Ele utiliza o tempo no metrô para ler obras de Colleen Hoover, autora que ganhou grande popularidade por meio das comunidades de leitores nas plataformas digitais.
Embora a influência digital traga debates sobre a forma como alguns temas são abordados em best-sellers, o movimento tem gerado um novo engajamento. Para especialistas, a internet ajuda a criar um desejo de participar de eventos, aproximando o público de um cenário que lembra grandes festivais de música.
Diversidade de gêneros e registros
A variedade de títulos encontrados nos trens e metrôs é ampla e reflete diferentes propósitos de leitura. Nos vagões, convivem obras de autores como Stephen King, clássicos da literatura e livros de autoajuda, além de textos religiosos e poesia.
Esse comportamento tem sido documentado por projetos como o "Vi Você Lendo", iniciado em 2016 pelo jornalista Fernando Piovezam. O projeto utiliza fotografias para registrar passageiros que mantêm o hábito de ler livros físicos, e-readers ou pelo celular, mesmo diante das dificuldades de deslocamento.
O acervo do projeto homenageia a resiliência dos usuários que encontram na literatura um refúgio. As imagens mostram que a leitura no transporte público não se restringe a um único perfil ou gênero literário.
Para pesquisadores da área, o debate sobre o consumo de livros não deve ser limitado pelo tipo de obra escolhida. A leitura cumpre funções distintas, servindo tanto para o aprendizado cultural quanto para o descanso mental e entretenimento puro.
