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Ibovespa fecha semestre com alta, mas mercado teme fraco desempenho no segundo semestre

Índice encerrou primeiro semestre com ganho de 6,77%, mas enfrentou queda em junho e enfrenta ceticismo do mercado para recuperação nos próximos meses.

Por Diário Local

O Ibovespa encerrou o primeiro semestre de 2026 com alta de 6,77%, impulsionado pelo otimismo inicial de investidores internacionais. No entanto, desde abril, quando o índice ultrapassou a marca dos 198 mil pontos e alimentou esperanças de chegar aos 200 mil, o comportamento mudou radicalmente. Com 172.024,12 pontos registrados ao final do pregão de terça-feira (30), o índice acumula sequência de meses negativos e registrou perda de 1,01% apenas em junho.

O impulso inicial do ano refletiu um cenário muito específico. O Ibovespa operava com múltiplo descontado, havia necessidade de diversificação por parte dos investidores globais e grande animação com mercados emergentes logo na virada de 2025 para 2026. Esse otimismo se traduziu em números recordes: a B3 registrou entrada líquida recorde de R$ 26,31 bilhões em janeiro.

A partir de fevereiro, porém, o fluxo de capital começou a recuar progressivamente. A tendência piorou em maio, quando foi observada a maior saída de recursos da bolsa desde 2022. Esse movimento marcou a virada de um mercado que havia começado o ano em alta.

Fatores internacionais refreiam investidores estrangeiros

O principal culpado pela mudança de rumo é o cenário macroeconômico internacional. David Beker, chefe de Economia no Brasil e Estratégia para América Latina do Bank of America, aponta que houve redução de estrangeiros em todos os ativos, justamente quando esse capital era o principal motor da bolsa.

Três fatores externos se combinaram para desviar capital do Brasil. A expectativa de alta de juros nos Estados Unidos concentrou investimentos em ativos americanos. Simultaneamente, alocações maciças em inteligência artificial puxaram recursos globais para o setor de tecnologia. E o arrefecimento da tensão no Oriente Médio reduziu ainda mais a procura por petróleo, derrubando os preços além do esperado.

Para Beker, esses são fatores internacionais, não domésticos. Ele ressalta, porém, que não há expectativas de grandes gatilhos para que o mercado brasileiro retome o rali visto na primeira metade do ano. A bolsa segue dependente do fluxo estrangeiro, agora redirecionado para outras oportunidades.

Juros altos no Brasil limitam recuperação

Internamente, a taxa de juros segue como obstáculo significativo. O mercado acredita que a Selic deve se manter acima de 11% até a metade de 2028, segundo as expectativas mais recentes do boletim Focus do Banco Central. Juros elevados reduzem o apetite ao risco, tornando a renda fixa mais atrativa que a renda variável.

Para Virgilio Lage, especialista da Valor Investimentos, a política monetária é o principal fator que poderia retomar a atratividade da bolsa. Se os juros caíssem, o apetite a risco cresceria frente aos retornos menores que a renda fixa proporcionaria. Mas esse cenário ainda parece distante.

Incertezas fiscais, eleitorais e internacionais se somam

Além das perspectivas sobre juros, outras fontes de incerteza freiam a recuperação. A situação fiscal permanece como risco, assim como o calendário eleitoral em andamento, a desaceleração da economia chinesa e o comportamento impredizível das commodities. O câmbio também reflete essa volatilidade: o dólar abriu 2026 em R$ 5,48, operou abaixo de R$ 5 entre abril e maio, mas desde então voltou a subir.

Emerson Jr, head de Offshore da Convexa Investimentos, sintetiza o momento: estamos num período ruim do ponto de vista fiscal, o foco está voltando para questões de sustentabilidade das contas públicas, e há incerteza sobre as eleições. Esse tripé de preocupações desestimula novos investimentos.

Fundamentos ainda oferecem esperança para o segundo semestre

Apesar do cenário desafiador, Rafael Espinoso, estrategista e portfólio manager da GCB, enxerga fundamentos que podem favorecer o Brasil nos últimos seis meses de 2026. O Ibovespa voltou a operar num múltiplo P/L descontado, há câmbio ainda bom para o investidor estrangeiro e a América Latina vive momento pró-mercado.

Soma-se a isso o cenário eleitoral apertado no Brasil, que em visão de alguns analistas pode criar oportunidades. Mas essa recuperação dependerá da reversão dos fatores externos que hoje freiam o mercado e da estabilização das questões internas que geram incerteza no investidor.

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.