Copa do Mundo de 48 times entrega caos na tabela; formato favorece Europa apesar das críticas
Expansão para 48 seleções trouxe incerteza até a última rodada, mas garantiu quase 30% das vagas diretas à UEFA, enquanto África e Ásia dividem fatia menor.
Por Diário Local
O novo formato da Copa do Mundo de 48 seleções gerou um caos praticamente irresolúvel na tabela de classificação da última rodada. Em pelo menos oito grupos, tanto o segundo como o quarto colocado permaneciam na contagem para possível classificação, criando um cenário impossível de calcular de forma simplificada. Era necessário acompanhamento constante de quais confrontos ainda restavam em todos os grupos envolvidos.
Um dos casos mais absurdos envolveu o Grupo G. Se o Irã perdesse para o Egito por 1 a 0 e a Bélgica perdesse para a Nova Zelândia por 2 a 1, ambas as seleções terminariam a disputa pelo terceiro lugar com 2 pontos, -1 de saldo e 2 gols-pró. Como empataram entre si, o confronto direto não seria critério de desempate. A decisão recairia na contagem de cartões: a Bélgica sofreu uma expulsão e três amarelados, enquanto o Irã recebeu apenas dois amarelos. Se os números se igualassem nos últimos jogos, a Bélgica avançaria pelo ranking.
O formato também revelou favorecimento explícito aos grupos das letras mais avançadas. A Coreia do Sul e a Escócia, por exemplo, jogaram no primeiro dia da rodada sem saber até o sábado se estariam na próxima fase. Os próximos confrontos ocorreriam na segunda-feira.
Seleções europeias saem prejudicadas pela incerteza
Apesar dos 8 dos 12 terceiros colocados conseguirem vaga para a próxima fase, várias seleções europeias enfrentam risco de eliminação. Áustria, Croácia, Escócia e Bélgica estão na berlinda e correm o risco de voltar para casa mais cedo. A situação contrasta com as críticas dirigidas ao novo formato, que frequentemente apontam a entrada de mais seleções africanas, asiáticas e da América Central como problema.
O desempenho técnico das seleções europeias nesta Copa também gerou questionamentos. A Tchéquia foi eliminada com merecimento. A Bósnia avançou em terceiro lugar pela fragilidade do Catar. A Escócia teve mais graça entre torcedores do que em campo. A Turquia, que obteve passaporte na repescagem europeia exclusiva, decepcionou. Bélgica, Áustria e Croácia, com futebol fraco, dependem dos resultados da última rodada.
UEFA mantém predominância apesar de críticas
Entretanto, a realidade dos números mostra outro cenário. A UEFA concentra um terço das 48 vagas sem passar pela repescagem, como fazem todas as outras confederações. Em 1994, a última edição com 24 times, metade das seleções era europeia. Nas edições de 32 times, a UEFA diminuiu sua predominância, mas manteve representação de 13 seleções — mais de 40% das vagas. No formato de 2026, embora tenha sido uma das confederações que menos "ganhou vagas" na redistribuição, a UEFA segue tendo mais membros do que África e Ásia combinadas.
A UEFA possui 55 federações filiadas e garantiu 16 vagas diretas — aproximadamente 30% de suas filiadas. A Confederação Africana (CAF) tem 56 filiadas e conquistou apenas 9 vagas diretas. A soma da Conmebol com a Concacaf corresponde a 51 federações mas recebeu 6 vagas diretas cada uma. A Ásia tem 47 federações filiadas e 8 vagas diretas. Apenas as confederações africana, asiática e de Oceania disputam representantes adicionais na repescagem.
O desenvolvimento do futebol africano e asiático
O futebol transformou-se significativamente nas últimas décadas. Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, 10 das 30 seleções inscritas nas eliminatórias africanas desistiram de participar. Hoje, o continente africano não apenas atingiu nível muito maior de profissionalismo como passou a contar com talento de jogadores nascidos na Europa. A Copa Africana e as Eliminatórias tornaram-se disputadíssimas, com pelo menos 12 seleções de alto nível competindo em equilíbrio.
A primeira prateleira do futebol europeu envolve apenas Alemanha, Espanha e França. A Itália, apesar do peso histórico, não se classifica há três Copas. Portugal, Holanda e Bélgica são fortes, mas nunca foram campeãs e raramente chegam entre as melhores. Juntas, as três tiveram apenas quatro aparições em semifinais e uma final nas últimas dez Copas. A Croácia, finalista e semifinalista recente, vive era de ouro que parece estar se esgotando.
Isso coloca a Croácia na mesma prateleira de Suécia, Suíça e Dinamarca — seleções que não costumam passar vergonha, mas também nunca fazem nada significativo. Aproximadamente sete seleções realmente competitivas europeias existem, com algumas boas surpresas aqui e acolá. O restante costuma ir a passeio: Áustria, Tchéquia, Escócia, Turquia e ocasionalmente Polônia, Rússia, Hungria, Eslováquia, Eslovênia, Sérvia, Bósnia, Grécia, Ucrânia e Islândia.
Repensar a distribuição de vagas
Seis vagas para a segunda prateleira europeia pode ser considerado excessivo. Seria possível garantir 12 vagas diretas para europeus, com duas seleções disputando a repescagem, assim como fazem as demais confederações. Ainda haveria mais europeus do que grupos. Sugerir a redistribuição de duas vagas não seria forçar. Bastaria trocar pela segunda vaga da Concacaf na repescagem ou fechar as dez vagas da CAF sem repescagem.
No fim das contas, a Copa do Mundo é um torneio global e precisa permitir representação. A expansão para 48 times proporcionou a muitos novos países a chance de desfrutar do maior evento do planeta — o grande encontro dos povos, cores e credos da humanidade. Não há razão para culpar quem mereceu estar ali. Mesmo quando não jogam bola de alta qualidade, muitas seleções entregaram histórias maravilhosas.
