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Em 20 eleições na América do Sul, governistas venceram apenas 3 vezes desde 2018

Levantamento mostra que candidatos da situação enfrentam desvantagem estrutural em pleitos presidenciais sul-americanos, fenômeno que desafia a expectativa tradicional de vantagem governista.

Por Diário Local

Na América do Sul, candidatos da situação enfrentam uma desvantagem clara nas eleições presidenciais. Um levantamento realizado mostra que, desde 2018, o governismo venceu apenas 3 das últimas 20 disputas realizadas em países latino-americanos independentes do continente. O resultado desafia a máxima política tradicional de que quem ocupa o governo tem vantagem natural em pleitos.

Mesmo em democracias saudáveis, com instituições robustas, é comum supor que o governismo sai na frente. Afinal, o poder executivo dispõe de maior visibilidade, capacidade de pautar o debate público e tem resultados concretos para apresentar aos eleitores.

Entre as três vitórias governistas identificadas, duas ocorreram no Paraguai — em 2018 e 2023 — e uma no Equador em 2025. O Paraguai é o único país a registrar duas vitórias sucessivas do Partido Colorado, sigla que permanece no poder durante o período analisado.

Por que o governismo perde?

Em muitos casos, candidatos governistas encerram seus mandatos com popularidade reduzida ou envolvidos em escândalos políticos. Esse desgaste frequentemente os impede de apresentar uma candidatura competitiva. Em algumas eleições, a situação se mostrou tão frágil que o próprio governo optou por não lançar candidato.

As duas eleições mais recentes do continente ilustram bem o padrão. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, de direita, derrotou Iván Cepeda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro, por uma margem estreita de votos. No Peru, Keiko Fujimori venceu em disputa onde não havia candidato governista de fato — José María Balcázar, que exercia a presidência, era congressista designado para cumprir um mandato-tampão após a destituição de Dina Boluate.

Vitórias governistas marcadas por continuidade

Em 2018, o Paraguai registrou a primeira vitória governista do período, com Horacio Cartes entregando o poder a Mario Abdo Benítez, ambos do Partido Colorado. Cinco anos depois, em 2023, Mario Abdo Benítez passou a faixa para Santiago Peña, mantendo o domínio da sigla no país.

O Equador apresentou um caminho distinto. Em 2021, o presidente Lenín Moreno, que havia se afastado da esquerda durante seu mandato, não lançou candidato à reeleição. Guillermo Lasso venceu a disputa. Em 2023, Lasso convocou eleições antecipadas após perda de apoio decorrente de escândalos de sua administração, mas não apoiou nenhum candidato. Daniel Noboa, do mesmo espectro político de Lasso, venceu. Em 2025, Noboa obteve reeleição — marcando a terceira vitória governista do levantamento, mas com menor ligação ideológica direta entre governante e sucessor.

Derrotas sucessivas na Argentina

Argentina perdeu duas disputas presidenciais consecutivas. Em 2019, Mauricio Macri, liberal não peronista, foi derrotado por Alberto Fernández, peronista de esquerda apoiado por Cristina Kirchner. Em 2023, Sergio Massa, candidato do kirchnerismo no poder com Fernández, perdeu para Javier Milei, de direita, em uma eleição que refletiu descontentamento com a administração anterior.

Alternância no Brasil, Colômbia e Uruguai

O Brasil viu transição em 2018, quando Michel Temer (MDB) passou a faixa para Bolsonaro (então no PSL). O candidato do MDB, Henrique Meirelles, obteve apenas 1,20% dos votos válidos no primeiro turno. Em 2022, Jair Bolsonaro tentou a reeleição, mas perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva em votação apertada.

A Colômbia também registrou alternância. Em 2018, Juan Manuel Santos foi sucedido por Iván Duque, do Centro Democrático (direita). Em 2022, Duque foi sucedido pelo esquerdista Gustavo Petro, que já havia sido seu rival na eleição anterior.

O Uruguai viu duas derrotas governistas em ciclos separados. Em 2019, Tabaré Vázquez, de esquerda, perdeu para Luis Lacalle Pou, da direita liberal. Em 2024, o governismo sofreu nova derrota, quando Yamandú Orsi, da esquerda, venceu o candidato apoiado por Lacalle Pou, Álvaro Delgado.

Instabilidade e transições na Bolívia e Chile

A Bolívia viu duas transições sem vitória governista. Em 2020, Jeanine Áñez, presidente interina de direita, foi sucedida por Luis Arce, então aliado de Evo Morales. Em 2025, Arce perdeu para Rodrigo Paz, encerrando um ciclo de 20 anos de vitórias eleitorais da esquerda boliviana.

O Chile também registra duas derrotas governistas em sequência. Em 2021, Gabriel Boric, de esquerda, foi eleito sucessor de Sebastián Piñera, direitista. Em 2025, Boric não conseguiu eleger sua correligionária Jeannette Jara, e José Antonio Kast, que havia perdido a disputa anterior, levou a direita novamente ao poder.

Instabilidade contínua no Peru

O Peru enfrentou instabilidade política intensa no período analisado. Em 2021, Francisco Sagasti, presidente designado pelo Congresso após anos de crise, foi sucedido por Pedro Castillo, representante da esquerda conservadora. Em 2026, Keiko Fujimori, também de direita, venceu em disputa onde não havia candidato governista de fato.

O levantamento analisou apenas países latino-americanos independentes da América do Sul. A Venezuela foi excluída da contagem por não ter eleições consideradas justas pela comunidade internacional.

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.