Ofensiva ucraniana causa crise de combustível na Crimeia, região anexada pela Rússia
Ataques contra refinarias, pontes e instalações militares deixam população de 2,4 milhões sem gasolina; governo russo decretou estado de emergência e racionamento.
Por Diário Local
A Crimeia enfrenta uma crise aguda de abastecimento após intensificação dos ataques ucranianos contra infraestrutura estratégica russa. De acordo com o chefe da região anexada pela Rússia, Sergei Aksyonov, a população de cerca de 2,4 milhões de moradores enfrentará escassez de combustível nos próximos dias. O governador da maior região da Crimeia, Sebastopol, Mikhail Razvozhayev, afirmou que as restrições ao fornecimento devem perdurar cerca de um mês.
A crise foi desencadeada pela ofensiva ucraniana que intensificou ataques em instalações de combustíveis, comunicações e infraestrutura militar. Segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, a estratégia reduz o "potencial militar-econômico do estado agressor". O balanço ucraniano aponta a destruição de 11 refinarias russas, 7 instalações de logística de combustível, centros de comunicação espacial, navios e balsas.
Na Crimeia especificamente, a Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa ucraniano afirmou ter atingido um radar de vigilância, 6 aviões tanque, 2 locomotivas de carga, 3 cisternas de combustível e equipamentos militares em um comboio. A ponte que liga o território russo à Crimeia — vital para o transporte de combustível e material militar — também foi danificada.
O impacto na ponte estratégica agravou ainda mais a situação logística. A região passou a enfrentar escassez não só em combustível, mas também na rede elétrica e de alimentos, que chegavam através desta via. A Crimeia é uma península localizada dentro do território da Ucrânia, anexada pela Rússia em 2014, e abriga a Frota Russa no Mar Negro, instalada em Sebastopol.
Estado de emergência e medidas de racionamento
Diante da escassez, o governo local decretou estado de emergência em 26 de junho e adotou medidas de racionamento de gasolina e energia. Aksyonov afirmou que o governo trabalha para resolver o problema, mas reconheceu que em um futuro próximo não existirá combustível à venda para a população.
Razvozhayev afirmou em pronunciamento de 30 de junho que as autoridades continuam "trabalhando com o quartel-general federal para aumentar os volumes de fornecimento", mas as restrições ainda se mantêm. Além do combustível e energia, a população enfrenta desabastecimento de alimentos que chegavam através da ponte danificada.
A Crimeia funciona como centro de logística para a Rússia no conflito, sendo por lá que grande parte das armas e suprimentos são enviados para soldados na linha de frente. A região é também o principal acesso do país ao Mar Negro durante o inverno.
Drones e ofensiva tecnológica ucraniana
A Ucrânia ampliou significativamente investimentos em drones para esta ofensiva. Em maio, o Ministério da Defesa russo admitiu que cerca de 600 drones ucranianos foram lançados contra o território russo, incluindo a Crimeia. Autoridades ucranianas ouvidas sob condição de anonimato apontam que os ataques são fruto de uma estratégia de longo prazo.
Meses após a Rússia iniciar o conflito, o governo ucraniano lançou o programa Army of Drones (Exército de Drones), coordenado pelas Forças Armadas da Ucrânia, pela organização Congresso Mundial dos Ucranianos e pelo Ministério da Transformação Digital. A iniciativa resultou na criação das Forças de Sistemas Não Tripulados, um ramo das Forças Armadas dedicado exclusivamente ao uso de veículos não-tripulados.
Mykhailo Fedorov, empossado como ministro da Defesa em janeiro deste ano, participou ativamente do desenvolvimento destas capacidades. Quando o projeto estava sendo desenhado, Fedorov atuava como ministro da Transformação Digital. Nascido em 1991, ficou reconhecido por perfil focado no uso de tecnologias em guerra, como drones e Inteligência Artificial.
Objetivo político e negociações
Analistas afirmam que os ataques ucranianos visam não apenas retomar território, mas forçar a retomada de negociações de paz. De acordo com especialista em ciências militares, a campanha concentra-se em criar "pressão muito grande na liderança russa", uma vez que a Crimeia é "o grande trunfo da ocupação desde 2015".
A estratégia ucraniana aproveita um ciclo de inovação tecnológica ainda sem adaptação russa. Segundo analistas, as adaptações nesse conflito giram em torno de quatro a seis semanas, então os ucranianos estão tentando aproveitar esse momento para "criar um fato político que force a Rússia a retomar as negociações", que estão estagnadas desde o início do ano.
Apesar da ofensiva ucraniana, a Rússia mantém sua postura de continuidade dos combates. De acordo com o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, Valery Gerasimov, 29 localidades dentro da Ucrânia foram conquistadas no último mês, abrangendo uma área equivalente a 636 quilômetros quadrados.
O Kremlin prometeu expandir a ocupação na Ucrânia caso os ataques contra infraestruturas do país continuem. Segundo a posição russa, a medida se justifica pela necessidade de expandir a zona de segurança russa. Os últimos balanços militares divulgados por autoridades russas mostram que o país pretende prosseguir com os combates.
