Putin não pode declarar vitória na Ucrânia devido ao custo de vidas, afirma Nobel da Paz
Ex-editor do Novaya Gazeta aponta repressão crescente na Rússia e alerta para o risco de escalada nuclear no conflito.
Por Redação Diário Local
O presidente russo Vladimir Putin não tem condições de declarar vitória na guerra na Ucrânia, afirma o jornalista Dmitry Muratov, vencedor do Prêmio Nobel da Paz. Para o ex-editor-chefe do jornal Novaya Gazeta, o custo humano do conflito, que ultrapassou a marca de 1 milhão de mortos entre as duas nações, torna qualquer desfecho impossível de ser chamado de vitória.
Muratov alertou que, embora a Rússia busque objetivos militares, a situação atual pode levar a uma escalada de destruição, mas não à conquista do território ucraniano. O jornalista destacou o risco de uma progressão contínua que pode culminar no uso de armas nucleares, observando que discussões sobre o tema já foram ouvidas em canais de televisão estatal e em eventos promovidos pelo governo.
A análise do Nobel da Paz também evidenciou a intensificação da repressão à liberdade de expressão na Rússia desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Segundo Muratov, centenas de pessoas com influência sobre a opinião pública foram rotuladas pelas autoridades como "agentes estrangeiros", "extremistas" ou "terroristas".
Estimativas cautelosas indicam que, desde o início da invasão, pelo menos 1,5 mil pessoas foram presas por se manifestarem contra as políticas do governo. O volume de prisões políticas é descrito pelo jornalista como três vezes superior ao registrado nos períodos mais rígidos do Comitê de Segurança do Estado (KGB), na antiga União Soviética.
Entre os casos de repressão citados estão jornalistas condenados por extremismo e cidadãos que publicaram críticas à guerra. O jornalista mencionou, por exemplo, o músico Pavel Kushnir, que morreu aos 39 anos em um centro de detenção provisória durante uma greve de fome.
O fim do jornalismo independente
A repressão afetou diretamente o Novaya Gazeta, jornal que Muratov ajudou a fundar há mais de 30 anos e que foi reconhecido pelo Comitê do Nobel por proteger a liberdade de expressão. O veículo teve o registro cassado e as máquinas de impressão foram estatizadas por decreto assinado por Vladimir Putin.
Embora o jornal ainda mantenha presença na internet, o seu alcance é limitado devido ao bloqueio do site pelas autoridades russas. Para acessar o conteúdo, usuários precisam recorrer ao uso de redes privadas virtuais (VPN), que mascaram o endereço do usuário e criptografam a conexão.
O próprio Muratov foi classificado pelo governo russo como "agente estrangeiro", rótulo que impõe restrições de direitos, como a proibição de dar aulas ou participar de eleições. Apesar da pressão, o jornalista afirmou que o controle de Putin sobre o país é reforçado pelo Serviço Federal de Segurança (FSB).
