Flávio Bolsonaro propõe pausa de 180 dias nos EUA antes de tarifas contra Brasil
Senador enviou manifestação de 86 páginas ao USTR sugerindo suspensão temporária das medidas de 25% com mecanismo automático caso não haja avanços.
Por Diário Local
O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou ao USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), em 2 de julho de 2026, uma manifestação de 86 páginas propondo que o governo norte-americano não implemente imediatamente as tarifas de 25% previstas contra produtos brasileiros. Em vez disso, sugeriu a abertura de um período de negociação entre os dois países antes de qualquer medida entrar em vigor.
A proposta inclui um mecanismo de snapback (retorno automático). Pelo modelo, as tarifas ficariam suspensas por 180 dias enquanto Brasil e Estados Unidos buscassem uma solução negociada. O prazo poderia ser estendido por mais 90 dias caso as negociações apresentassem avanços concretos e fossem conduzidas de boa-fé. Sem progresso, as medidas voltariam automaticamente a ser aplicadas.
Segundo o documento, o governo atual teria esse período para participar de negociações sem a perspectiva de enfrentar as consequências do restabelecimento das tarifas. O mesmo período daria à oposição no Congresso tempo e legitimidade para pressionar o governo a intensificar seus esforços de negociação.
Flávio argumenta que a proximidade das eleições brasileiras de 2026 pode dificultar negociações mais amplas ao criar incentivos políticos para transformar disputas comerciais em ganhos eleitorais. A suspensão temporária abriria espaço para tratativas sem o impacto imediato do calendário político.
Em caso de vitória da oposição, o presidente eleito nomearia imediatamente um negociador para dar prosseguimento às negociações de boa-fé. Essa disposição, segundo o documento, elimina a volatilidade do fator eleitoral e oferece ao governo atual uma oportunidade de agir de forma responsável.
O senador sustenta que a própria legislação americana permite adiar a implementação de determinadas medidas por até 180 dias quando houver interesse econômico nacional e negociações substanciais em andamento ou em perspectiva imediata. Ambas as condições estariam presentes neste caso.
Flávio afirma que tarifas amplas poderiam trazer custos para a própria economia americana, atingindo consumidores e empresas dos Estados Unidos. As medidas também afetariam investidores e cadeias produtivas ligadas ao comércio bilateral entre os países.
A proposta foi apresentada durante investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, utilizada para apurar práticas consideradas prejudiciais aos interesses americanos. Entre os pontos citados pelos norte-americanos ao Brasil estão comércio digital, Pix, tarifas, corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.
No documento, Flávio afirma que medidas tarifárias anteriores não alteraram o comportamento das autoridades brasileiras e acabaram fortalecendo politicamente o governo Lula. Pesquisas de opinião pública brasileiras mostram que a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu precisamente durante os períodos em que a pressão tarifária dos EUA foi mais evidente.
O senador sugere que esse padrão indica que a pressão tarifária, sem negociações paralelas, não funciona como ferramenta de mudança de comportamento. Pelo contrário, teria consolidado politicamente o governo alvo da pressão.
A manifestação enfatiza que a suspensão de 180 dias manteria a questão estritamente dentro do cronograma previsto pela legislação norte-americana. O prazo começaria a contar apenas a partir de uma decisão afirmativa de agir; uma decisão de suspender a implementação não inicia essa contagem.
A proposta busca criar um cenário em que negociações aconteçam sem pressão imediata, permitindo que possíveis mudanças de governo no Brasil não interrompam as tratativas. A continuidade administrativa seria garantida pela indicação automática de um novo negociador pela administração que assumisse após as eleições.
O documento propõe, ainda, que essa disposição preserve a possibilidade de que os Estados Unidos passem a negociar com interlocutores de boa-fé interessados em restaurar a relação comercial mutuamente benéfica que historicamente marcou as relações entre os dois países.
A manifestação de 86 páginas reúne argumentos jurídicos, econômicos e políticos para fundamentar o pedido de suspensão de 180 dias. O documento está disponível em inglês e em tradução, com a íntegra do mecanismo proposto detalhado nas páginas 17 e 18.
