Especialistas alertam para risco de hiperdiagnóstico e rotulagem de crianças com dificuldades comuns
Tendência de transformar dificuldades de desenvolvimento em diagnósticos clínicos exige atenção ao contexto e estímulos antes de avaliações.
Por Redação Diário Local
O aumento de diagnósticos relacionados à aprendizagem e à saúde mental tem gerado um alerta sobre o fenômeno do hiperdiagnóstico, que consiste na tendência de transformar dificuldades comuns do desenvolvimento infantil em diagnósticos clínicos. Especialistas reforçam que é necessário compreender o contexto e o ritmo de cada criança antes de qualquer avaliação profissional.
Diferente de doenças médicas tradicionais, que muitas vezes apresentam alterações fisiológicas identificáveis, os diagnósticos ligados ao desenvolvimento e à saúde mental nem sempre possuem um substrato físico evidente. O termo "transtorno" refere-se a uma dificuldade persistente que causa prejuízos concretos na autonomia, nas relações sociais, na regulação emocional e na aprendizagem.
Um exemplo é o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O quadro não se resume a uma "atenção ruim", mas envolve a relação entre o funcionamento da criança e as expectativas sociais de desempenho. Embora as diferenças façam parte da diversidade humana, a criação de categorias para nomear quem se afasta da média pode transformar variações naturais em rótulos que limitam o indivíduo.
Por que o diagnóstico nem sempre é o primeiro passo?
Um diagnóstico cumpre seu papel quando ajuda a entender o funcionamento da criança e orienta intervenções mais assertivas. Contudo, ele perde sua utilidade quando serve para reduzir o sujeito às suas dificuldades ou para encobrir a falta de condições adequadas de desenvolvimento.
Antes de buscar um diagnóstico, é necessário observar o ambiente. Mudanças na rotina familiar, o uso excessivo de telas e a falta de oportunidades de interação podem gerar comportamentos que se assemelham a transtornos. O uso intensivo de dispositivos digitais, inclusive, tem sido apontado por estudiosos como um fator que afeta a atenção e a regulação emocional, substituindo experiências presenciais fundamentais.
O primeiro passo recomendado diante de desafios de aprendizagem é fortalecer as bases do desenvolvimento, como o movimento, as brincadeiras, a convivência familiar e o contato com a natureza. Esses elementos são estruturantes e podem reorganizar parte das dificuldades de forma natural.
Como proceder em caso de dificuldades persistentes?
Quando as dificuldades persistem mesmo com estímulos adequados, o caminho indicado é o diálogo com a escola e o pediatra. A equipe pedagógica e o médico podem ajudar a entender como a criança se comporta em diferentes contextos antes de qualquer encaminhamento especializado.
Profissionais de diferentes áreas podem contribuir para o perfil da criança: a psicologia atua em aspectos emocionais e comportamentais; a fonoaudiologia foca na linguagem e comunicação; e a terapia ocupacional auxilia na organização do corpo e nos aspectos sensoriais. Esse conjunto de avaliações pode subsidiar a construção de um diagnóstico mais preciso, quando necessário.
