Teoria do Apego vira tendência nas redes sociais e especialistas alertam para uso de rótulos
Conceito sobre desenvolvimento infantil é usado por usuários para rotular parceiros, mas especialistas dizem que comportamento não é diagnóstico.
Por Redação Diário Local
A Teoria do Apego, conceito criado para explicar o vínculo entre bebês e cuidadores, tornou-se uma tendência nas redes sociais para tentar explicar crises em relacionamentos adultos. O uso de termos como "ansioso" e "evitativo" tem sido frequente para rotular comportamentos de parceiros, mas especialistas alertam que a aplicação atual pode ser simplista.
O fenômeno ganhou força com a popularização de expressões que descrevem a perda de intimidade em casais, como a chamada "fase colega de quarto". Nesse cenário, a convivência se resume à divisão de tarefas domésticas, contas e compras, sem a manutenção da conexão emocional e do diálogo cotidiano.
Para tentar compreender essa dinâmica, usuários de redes sociais têm buscado no conceito de Apego Adulto — um desdobramento da teoria original — uma forma de classificar as atitudes dos parceiros. O raciocínio comum nas plataformas digitais é fazer uma engenharia reversa: se um parceiro se afasta, ele é rotulado como "evitativo".
O que é a Teoria do Apego?
A teoria original foi formulada pelo psiquiatra britânico John Bowlby para descrever como o vínculo entre bebês e cuidadores molda as expectativas de relacionamentos futuros. Trata-se de um modelo sobre a infância e não um diagnóstico de comportamento amoroso do século 21.
As ferramentas utilizadas na internet baseiam-se em conceitos de pesquisadores como Cindy Hazan e Phillip Shaver, que aplicaram essas ideias ao comportamento adulto. A partir desse campo, surgiram o vocabulário e as dicas de namoro que circulam atualmente nas redes.
O psicólogo e pós-doutor em psiquiatria Cristiano Nabuco explica que existe uma tendência de comparar o comportamento de alguém a uma caricatura, como o indivíduo "frio" ou "isolado". Segundo ele, o comportamento é uma consequência de uma matriz de pensamento e não a causa em si.
Nabuco pontua que o comportamento "evitativo", por exemplo, é o resultado de um padrão de apego. Por isso, ele afirma que um teste que apenas classifica atitudes superficiais dificilmente alcança o que realmente importa no funcionamento psicológico do indivíduo.
É possível mudar o estilo de apego?
Sobre a possibilidade de mudança, o psicólogo cita que, conforme a perspectiva de Bowlby, o estilo de apego tende a acompanhar o indivíduo por toda a vida, sendo uma alteração muito difícil de ser realizada.
No entanto, a própria teoria prevê que, ao longo da vida, as pessoas podem encontrar parceiros que desafiem esse estilo. Um perfil "evitativo", por exemplo, ao se relacionar com alguém que possui um estilo "seguro", pode ser incentivado a se conectar e expressar sentimentos.
Essas interações funcionam como experiências que podem tornar o comportamento mais adaptável e funcional. Embora não apaguem o padrão original, elas permitem que o indivíduo se torne mais flexível em suas reações emocionais.
O rótulo ajuda ou atrapalha?
O uso massivo de rótulos levanta o debate se a ferramenta serve como autoconhecimento ou como uma desculpa para não mudar. Para Nabuco, o uso do termo deve ser apenas um ponto de partida para entender o próprio funcionamento, e não um veredito definitivo sobre a pessoa.
A grande vantagem de identificar o próprio padrão, segundo o especialista, não está no rótulo em si, mas em tirar as reações do "piloto automático". Trazer esses mecanismos para a consciência permite que o indivíduo questione suas próprias condutas.
Ao compreender as "experiências-de-estar-com", conceito do psicanalista Daniel Stern, a pessoa abre espaço para novas formas de se relacionar. Mesmo que o chamado "padrão raiz" persista, o que pode ser transformado é a maneira como o indivíduo reage a ele.
Para quem busca identificar um padrão inseguro, Nabuco sugere três perguntas de reflexão: se a pessoa se sente bem nas relações, se tem facilidade em depender emocionalmente ao falar de fraquezas e se aprendeu a usar o distanciamento como forma de sobrevivência.
